ENTENDA a série "Contos de Domingo":
Em algum ponto perdido do mapa, e da vergonha também, existe Água do Boi, uma cidade pequena onde os escândalos andam mais rápido que a notícia e a honestidade. Lá governa o prefeito Mão Grande, homem de bolso fundo e mão ligeira, especialista em sumir com dinheiro público como quem tira doce de criança.
Ao lado dele está Maria Vaidosa, a primeira-dama que fala fino com gente rica e com cara fechada com gente pobre. Vive cercada de vestidos caros, perfumes importados e sorrisos calculados, enquanto prega uma moral que só vale para os outros. Juntos, eles formam o casal mais poderoso de Água do Boi, conduzindo a cidade como se fosse um palco, onde o povo sempre é a plateia que paga e nunca a estrela que brilha.
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Edelvânio Pinheiro*
Na prefeitura de Água do Boi, o burburinho era grande. Diziam que o prefeito Mão Grande andava meio enjoado de certas secretárias que só sabiam aparecer em foto e sumir no serviço. Maria Vaidosa, que tem o faro mais afiado que fofoqueira de esquina, percebeu logo que o recado era pra ela, e tratou de se antecipar.
Com aquele sorriso de quem já aprendeu que bajular é melhor que trabalhar, preparou uma nova armação. Chamou a assessora mais faladeira e mandou espalhar que uma “inimiga política” andava tentando puxar o tapete dela. Disse que a tal rival andava dizendo por aí que Mão Grande estava cansado das promessas dela e das selfies em eventos públicos.
A fofoca, como era de se esperar, correu mais rápido que carro de som em véspera de eleição. E o prefeito, que adora um drama, mandou chamá-la. Vaidosa entrou na sala chorando, porque sabe que lágrima, às vezes, convence mais do que argumento.
— Mãozinha, tão querendo me derrubar! — disse ela, com a mão no peito e a voz de atriz de novela mexicana. — Mas você sabe que tudo que eu faço é pelo povo de Água do Boi!
Mão Grande, que também não nasceu ontem, fingiu que acreditou. No fundo, sabia que aquela encenação toda era só pra garantir o cargo e continuar desfilando de carro oficial, com motorista e ar-condicionado. Mas, como também lhe servia manter Maria Vaidosa por perto, decidiu deixá-la quieta, afinal, ela era útil pra mentir nas redes sociais e inventar elogio quando não havia o que elogiar.
No fim do dia, Maria Vaidosa saiu da prefeitura com o rosto lavado de lágrimas e o ego polido com cera nova. E enquanto ajeitava o cabelo no espelho do carro, murmurou baixinho, com aquele ar de vitória que só ela tem:
— Em Água do Boi, quem sabe se fazer de vítima nunca perde o cargo.
*Edelvânio Pinheiro é bacharel em Jornalismo pela Católica (UCA), foi editor do jornal Alerta de Teixeira de Freitas e correspondente do A Tarde, de Salvador, na extinta sucursal do extremo sul, e é diretor-geral do site Água Preta News. É também radialista, ex-chefe de jornalismo da Rádio Extremo Sul de Itamaraju e diretor-geral da Rádio Master FM, de Itanhém. Escritor, autor de sete obras, incluindo uma obra infantojuvenil publicada no Brasil e em Portugal pela editora Flamingo, possui licenciatura em Letras Vernáculas pela Universidade do Estado da Bahia (UNEB) e é pós-graduado em Ciências Políticas.
Clique nos títulos abaixo e leia os contos da série publicados até agora:
Quem vota em ladrão, rouba de si mesmo
Maria Vaidosa exigiu do prefeito Mão Grande um camarote na festa, mas não para qualquer um
A obra do prefeito Mão Grande que não acabava nunca
O batuque da bajulação ao prefeito Mão Grande, na cidade de Água do Boi
Festa e bajulação no aniversário de Maria Vaidosa
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Quando o posto de gasolina vira banco os pobres morrem à míngua
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