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Terça-feira, 16 de Dezembro 2025

CONTOS DE DOMINGO

Maria Vaidosa e a “modesta” festa paga pela prefeitura; só o aluguel foi R$ 250 mil

Um evento “simples”, daqueles que só a vaidade e o dinheiro do povo permitem

Edelvânio Pinheiro
Por Edelvânio Pinheiro
Maria Vaidosa e a “modesta” festa paga pela prefeitura; só o aluguel foi R$ 250 mil
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ENTENDA a série "Contos de Domingo":

Em algum ponto perdido do mapa, e da vergonha também, existe Água do Boi, uma cidade pequena onde os escândalos andam mais rápido que a notícia e a honestidade. Lá governa o prefeito Mão Grande, homem de bolso fundo e mão ligeira, especialista em sumir com dinheiro público como quem tira doce de criança.

Ao lado dele está Maria Vaidosa, a primeira-dama que fala fino com gente rica e com cara fechada com gente pobre. Vive cercada de vestidos caros, perfumes importados e sorrisos calculados, enquanto prega uma moral que só vale para os outros. Juntos, eles formam o casal mais poderoso de Água do Boi, conduzindo a cidade como se fosse um palco, onde o povo sempre é a plateia que paga e nunca a estrela que brilha.

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Edelvânio Pinheiro*

Numa manhã quente — dessas em que até o sol parece sair de casa desconfiado — Maria Vaidosa acordou com uma ideia que faria qualquer pessoa sensata voltar a dormir:

— Vou dar uma festa! — pensou.

Mas não uma festa qualquer. Afinal, Maria Vaidosa não era mulher de fazer nada pequeno, muito menos barato. Queria um evento digno da realeza, da nobreza, do estrelato… ou de quem está acostumado a meter a mão no dinheiro alheio sem pensar duas vezes.

Escolheu, então, a cidade turística onde o metro quadrado é tão caro que até os pombos pagam aluguel para pousar. Um lugar tão exorbitante que, se você suspirasse mais forte, vinha um boleto pelo uso indevido do ar. E lá, naquele paraíso de preços indecentes, ela alugou um espaço por três dias, ao “modesto” valor de R$ 250 mil. Pagamento feito, naturalmente, com dinheiro dos cofres da prefeitura de Água do Boi e notas tão frias que quase deram pneumonia nos funcionários que tiveram de assinar os documentos para “legalizar” mais uma roubalheira.

— São parceiros! — dizia Mão Grande, com aquele sorriso de quem já perdeu a conta das vezes em que usou essa palavra para justificar as notas frias que necessitava.

Os tais “parceiros”, na verdade, eram fornecedores inventados, fantasmas ou ressuscitados espiritualmente apenas para emitir notas. O importante é que todo mundo recebia, menos o povo, é claro.

A festa teria 100 convidados. Gente da alta sociedade de Água do Boi — a alta sociedade, obviamente, definida por eles mesmos. O motivo do evento poderia ser definido em uma única palavra: VAIDADE.

O casa alugada estava impecável e tinha de tudo, até puxa-saco do casal Mão Grande e Maria Vaidosa. Havia luzes, flores, música, garçons, tapete vermelho e até uma fonte que jorrava refrigerante diet, “para não engordar o orçamento”, segundo Mão Grande.

E foi justamente Mão Grande quem resolveu inaugurar a festa do jeito que sabia melhor: bebendo. Bebeu até a própria sombra começar a andar torta. Bebeu até fazer a dancinha da garrafa. Bebeu até achar que era uma boa ideia fazer discurso.

Subiu no palco, tropeçou no próprio ego e começou a falar:

— Eu… eu queria dizer aqui… que ninguém… ninguém… administra esse dinheiro do povo melhor do que eu. Eu faço ele girar, viu? Gira tanto que chega até nas mãos… nas mãos… nas mãos dos meus familiares e amigos… que devolvem pra gente no final. É estratégia, meu povo! Estratégia de quem sabe mexer com prefeitura!

O silêncio que se fez era tão constrangedor que dava pra ouvir a consciência de cada convidado tentando fugir da própria cabeça.

Ele continuou, achando que estava arrasando:

— E Maria Vaidosa aqui, minha rainha… essa daí merece tudo! Porque se tem alguém que sabe usar o dinheiro da prefeitura… é ela! É talento nato! Eu sempre digo: tem gente que nasce com dom pra canto, outros pra jogar bola… ela nasceu pra gastar verba pública!

Maria Vaidosa sorriu como se estivesse recebendo elogio. Afinal, na cabeça dela, era.

E, enquanto Mão Grande continuava discursando sobre suas “estratégias avançadas” de corrupção, os convidados começaram a cochichar. Alguns riam. Outros fingiam que não estavam ouvindo. Outros gravavam tudo cuidadosamente, porque, bem… nunca se sabe quando um vídeo ou um áudio desses pode render um dinheirinho extra quando chega nas mãos de um jornalista bem ou mal intencionado.

A festa terminou como era previsto, com Mão Grande sendo carregado por três bajuladores, que naquele momento se tornaram paramédicos emocionais do prefeito. E Maria Vaidosa, radiante, dizia:

— Foi um sucesso! Ano que vem eu quero num lugar mais caro. Afinal… a gente merece, né?

E assim terminou mais um capítulo na carreira brilhantemente desastrosa de Mão Grande e Maria Vaidosa, a dupla que transforma gasto público em espetáculo…

 

NOTA AOS LEITORES:

Este será o último conto da série Contos de Domingo neste ano. Foi um período de sátiras afiadas, risadas nervosas e muita verdade escondida nas entrelinhas sobre as aventuras — e desventuras — do prefeito Mão Grande e da sua inseparável Maria Vaidosa.

Mas não se preocupe: a história escandalosa desse casal volta logo no início do ano que já está chegando. A caneta está apenas respirando, não descansando.

Estamos também estudando a possibilidade de experimentar um novo gênero literário em 2026: a fábula.
Fábula é uma narrativa curta em que animais são personagens que agem como seres humanos, carregando uma mensagem moral ao final. É um tipo de história muito usado para criticar comportamentos sociais de forma leve, simbólica e inteligente.

Se decidirmos seguir por esse caminho, o prefeito será um roedor e naturalmente passará a se chamar Ratão, por motivos que nem precisam ser explicados para quem acompanha a política de Água do Boi.

E Maria Vaidosa? Se ela fosse um animal numa fábula, que bicho ela seria? Vai pensando aí até chegar 2026.

Por ora, agradeço de coração a cada leitor que acompanhou, comentou, criticou, riu e se indignou comigo ao longo desses contos. Nada disso teria sentido sem a leitura atenta, a interação generosa e o carinho de vocês, que dão vida às histórias e motivam este humilde contista escrevendo, sempre com humor, ironia e aquele olhar afiado sobre a nossa realidade. Que venha o novo ano, e que venham novas histórias para contarmos juntos.

 

*Edelvânio Pinheiro é bacharel em Jornalismo pela Católica (UCA), foi editor do jornal Alerta de Teixeira de Freitas e correspondente do A Tarde, de Salvador, na extinta sucursal do extremo sul, e é diretor-geral do site Água Preta News. É também radialista, ex-chefe de jornalismo da Rádio Extremo Sul de Itamaraju e diretor-geral da Rádio Master FM, de Itanhém. Escritor, autor de sete obras, incluindo uma obra infantojuvenil publicada no Brasil e em Portugal pela editora Flamingo, possui licenciatura em Letras Vernáculas pela Universidade do Estado da Bahia (UNEB) e é pós-graduado em Ciências Políticas.

 

Clique nos títulos abaixo e leia os contos da série publicados até agora:

Quem vota em ladrão, rouba de si mesmo

Maria Vaidosa exigiu do prefeito Mão Grande um camarote na festa, mas não para qualquer um

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