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Segunda-feira, 08 de Dezembro 2025

CONTOS DE DOMINGO

Maria Vaidosa descobre um novo jeito de embelezar o próprio bolso

A tentativa de embelezar a cidade terminou expondo ainda mais a feiura da gestão.

Água Preta News
Por Água Preta News
Maria Vaidosa descobre um novo jeito de embelezar o próprio bolso
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ENTENDA a série "Contos de Domingo":

Em algum ponto perdido do mapa, e da vergonha também, existe Água do Boi, uma cidade pequena onde os escândalos andam mais rápido que a notícia e a honestidade. Lá governa o prefeito Mão Grande, homem de bolso fundo e mão ligeira, especialista em sumir com dinheiro público como quem tira doce de criança.

Ao lado dele está Maria Vaidosa, a primeira-dama que fala fino com gente rica e com cara fechada com gente pobre. Vive cercada de vestidos caros, perfumes importados e sorrisos calculados, enquanto prega uma moral que só vale para os outros. Juntos, eles formam o casal mais poderoso de Água do Boi, conduzindo a cidade como se fosse um palco, onde o povo sempre é a plateia que paga e nunca a estrela que brilha.

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***

Edelvânio Pinheiro*

Dizem que em Água do Boi a criatividade para inventar problema é menor do que a criatividade do prefeito Mão Grande para inventar gasto público. E quando a preguiça ameaça, quem salva a lavoura é sempre a mulher dele, Maria Vaidosa, que acorda todo dia com a missão sagrada de manter as aparências (as dela, claro), porque as do município já se perderam faz tempo.

Vaidosa sempre acorda inspirada. Tinha passado a noite inteira assistindo vídeos de influenciadoras famosas, e jurava que a luz de selfie dava até um ar de santidade. Olhando-se no espelho com pose de quem foi escolhida por Deus para brilhar, decretou:

— Esses moradores precisam aprender a se cuidar. Olha o tanto de cara cansada por aí! Povo só sabe pedir. A prefeitura não pariu ninguém. A autoestima de Água do Boi anda horrorosa.

Mão Grande, que até então fingia dormir, abriu um olho só:

— E o que é que eu tenho a ver com isso, Maria? Já estou cuidando demais desse povo, tirei até o dinheiro da ambulância nova...

Ela ignorou a confissão criminosa, como quem ignora poeira embaixo do tapete, e continuou:

— Pois eu tive uma ideia, Mãozinha. Um programa social. Uma coisa bonita. Um negócio assim... transformador!

O prefeito já levantou sorrindo. Programa social sempre significava duas coisas: fotos e vídeos para postar nas redes sociais e dinheiro para desaparecer.

— Diga, mulher. Que ideia boa é essa?

— Programa “Beleza para o Povo”! Vamos distribuir kits de maquiagem, cremes, esmaltes, tudo de primeira!

Mão Grande coçou o queixo, desconfiado.

— De primeira... onde?

— Na loja de minha amiga, ora! Ela abre um CNPJ e vira fornecedora exclusiva. A gente coloca um preço simbólico...

— Simbólico de quanto?

— Ah… uns 500 reais cada kit. Nada exagerado. E o povo vai agradecer, viu? Eu mesma vou dar palestras motivacionais. Vou ensinar as mulheres a serem elegantes e bonitas como eu.

Mão Grande, emocionado com tamanha oportunidade de “trabalho”, levantou da cama num salto digno de atleta olímpico:

— Maria, tu é a inteligência por trás dessa gestão!

E assim foi feito.

No dia do lançamento, a praça estava cheia. Cheia de curiosos, claro — ninguém em Água do Boi perde a chance de ver Maria Vaidosa fazendo teatro ao ar livre.

Ela subiu no palco com um vestido tão brilhante que ofuscou até a iluminação pública que, por sinal, já estava péssima desde que Mão Grande assumiu a prefeitura.

— Minhas amigas e meus amigos queridos! — começou ela, com a voz de quem narra comercial de perfume francês. — Hoje entrego a vocês um sonho! Sim, um sonho que vai transformar a autoestima dessa cidade!

A plateia murmurou. Tinha gente que nem sabia o que era “autoestima”, mas aplaudiu por educação.

Mão Grande, sempre ao lado, completou, com aquele sorriso de campanha disfarçado:

— Água do Boi agora entra na era da beleza. Porque beleza é saúde! E saúde é prioridade!

Ninguém entendeu nada, mas parecia bonito.

O primeiro kit foi entregue a dona Firmina, uma senhora de 78 anos, que cresceu ao lado da enxada, que nunca nem usou batom na vida.

Ela abriu a sacolinha e arregalou os olhos:

— Minha filha… isso aqui tá vencido!

Maria Vaidosa ignorou.

— É vintage! As blogueiras amam!

Outra moradora, mais ousada, cheirou o creme e fez careta.

— Isso aqui parece massa de bolo...

— É fórmula inovadora, minha senhora! — respondeu Maria, já perdendo a paciência. — Eu estudo essas coisas! Sou especialista nisso.

Mas a revolta começou quando as pessoas perceberam que os kits “doados” precisariam ser “formalmente adquiridos”, e que quem não assinasse o papel de recebimento com valor “simbólico” de 500 reais ficaria fora dos próximos programas sociais da prefeitura.

Foi o suficiente para o burburinho virar reclamação.

Duas horas depois, as redes sociais de Água do Boi ferviam. Fotos de batons quebrados, esmaltes vencidos, cremes suspeitos e unhas pintadas com aparência de tinta guache se espalharam pelo WhatsApp.

Um que fazia oposição foi o primeiro a farejar sangue:

— Quero documentos! Nota fiscal! Justificativa técnica! Quero tudo! — gritava na Câmara, como se estivesse denunciando um esquema na NASA.

Ao ser informada da “perseguição”, Maria Vaidosa ficou indignada:

— É um absurdo! O povo dessa cidade não entende o que é qualidade. A minha presença já melhora a autoestima de qualquer lugar!

Dentro do gabinete, Mão Grande andava de um lado para outro, suando.

— Maria, inventa alguma coisa aí! Diz que esse creme aí tem poder rejuvenescedor… espiritual, sei lá!

— Espiritual é ótimo! — ela comemorou. — Vou dizer que foi inspirado em tratamento coreano. O povo acredita nessas coisas.

— E diz que tu estudou isso em um workshop!

— Online, claro. Gratuito. Mas ninguém precisa saber desse detalhe.

O vereador Juranildo do Café, aquele que a Câmara Municipal paga rios de dinheiro para ele servir café ao prefeito no gabinete e fazer declarações de amor a Mão Grande nas reuniões, saiu em defesa do programa “Beleza para o Povo” e conseguiu acalmar os ânimos:

No final das contas, o programa não levantou a autoestima de ninguém. Mas levantou — e muito — a suspeita do Ministério Público, que agora quer saber por que kits de 12 reais foram comprados por 500 cada.

Maria Vaidosa segue dizendo que tudo é intriga da oposição.

E o povo de Água do Boi segue esperando, pois sabe que, com esse casal no comando, o único envelhecimento precoce é o do dinheiro público que some sem deixar rastro e, que, a única solução para limpar a pele da administração seria com uma esfoliação profunda nas urnas.

 

*Edelvânio Pinheiro é bacharel em Jornalismo pela Católica (UCA), foi editor do jornal Alerta de Teixeira de Freitas e correspondente do A Tarde, de Salvador, na extinta sucursal do extremo sul, e é diretor-geral do site Água Preta News. É também radialista, ex-chefe de jornalismo da Rádio Extremo Sul de Itamaraju e diretor-geral da Rádio Master FM, de Itanhém. Escritor, autor de sete obras, incluindo uma obra infantojuvenil publicada no Brasil e em Portugal pela editora Flamingo, possui licenciatura em Letras Vernáculas pela Universidade do Estado da Bahia (UNEB) e é pós-graduado em Ciências Políticas.

 

 Clique nos títulos abaixo e leia os contos da série publicados até agora:

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O Água Preta News começou a operar, oficialmente, em 30 de agosto de 2016. A data – dia e mês – é a mesma do aniversário do poeta e jornalista Almir Zarfeg, cuja obra poética de estreia, “Água Preta”, deu nome ao site de notícias e entretenimento.

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