ENTENDA a série "Contos de Domingo":
Em algum ponto perdido do mapa, e da vergonha também, existe Água do Boi, uma cidade pequena onde os escândalos andam mais rápido que a notícia e a honestidade. Lá governa o prefeito Mão Grande, homem de bolso fundo e mão ligeira, especialista em sumir com dinheiro público como quem tira doce de criança.
Ao lado dele está Maria Vaidosa, a primeira-dama que fala fino com gente rica e com cara fechada com gente pobre. Vive cercada de vestidos caros, perfumes importados e sorrisos calculados, enquanto prega uma moral que só vale para os outros. Juntos, eles formam o casal mais poderoso de Água do Boi, conduzindo a cidade como se fosse um palco, onde o povo sempre é a plateia que paga e nunca a estrela que brilha.
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Edelvânio Pinheiro*
Dizem que em Água do Boi a criatividade para inventar problema é menor do que a criatividade do prefeito Mão Grande para inventar gasto público. E quando a preguiça ameaça, quem salva a lavoura é sempre a mulher dele, Maria Vaidosa, que acorda todo dia com a missão sagrada de manter as aparências (as dela, claro), porque as do município já se perderam faz tempo.
Vaidosa sempre acorda inspirada. Tinha passado a noite inteira assistindo vídeos de influenciadoras famosas, e jurava que a luz de selfie dava até um ar de santidade. Olhando-se no espelho com pose de quem foi escolhida por Deus para brilhar, decretou:
— Esses moradores precisam aprender a se cuidar. Olha o tanto de cara cansada por aí! Povo só sabe pedir. A prefeitura não pariu ninguém. A autoestima de Água do Boi anda horrorosa.
Mão Grande, que até então fingia dormir, abriu um olho só:
— E o que é que eu tenho a ver com isso, Maria? Já estou cuidando demais desse povo, tirei até o dinheiro da ambulância nova...
Ela ignorou a confissão criminosa, como quem ignora poeira embaixo do tapete, e continuou:
— Pois eu tive uma ideia, Mãozinha. Um programa social. Uma coisa bonita. Um negócio assim... transformador!
O prefeito já levantou sorrindo. Programa social sempre significava duas coisas: fotos e vídeos para postar nas redes sociais e dinheiro para desaparecer.
— Diga, mulher. Que ideia boa é essa?
— Programa “Beleza para o Povo”! Vamos distribuir kits de maquiagem, cremes, esmaltes, tudo de primeira!
Mão Grande coçou o queixo, desconfiado.
— De primeira... onde?
— Na loja de minha amiga, ora! Ela abre um CNPJ e vira fornecedora exclusiva. A gente coloca um preço simbólico...
— Simbólico de quanto?
— Ah… uns 500 reais cada kit. Nada exagerado. E o povo vai agradecer, viu? Eu mesma vou dar palestras motivacionais. Vou ensinar as mulheres a serem elegantes e bonitas como eu.
Mão Grande, emocionado com tamanha oportunidade de “trabalho”, levantou da cama num salto digno de atleta olímpico:
— Maria, tu é a inteligência por trás dessa gestão!
E assim foi feito.
No dia do lançamento, a praça estava cheia. Cheia de curiosos, claro — ninguém em Água do Boi perde a chance de ver Maria Vaidosa fazendo teatro ao ar livre.
Ela subiu no palco com um vestido tão brilhante que ofuscou até a iluminação pública que, por sinal, já estava péssima desde que Mão Grande assumiu a prefeitura.
— Minhas amigas e meus amigos queridos! — começou ela, com a voz de quem narra comercial de perfume francês. — Hoje entrego a vocês um sonho! Sim, um sonho que vai transformar a autoestima dessa cidade!
A plateia murmurou. Tinha gente que nem sabia o que era “autoestima”, mas aplaudiu por educação.
Mão Grande, sempre ao lado, completou, com aquele sorriso de campanha disfarçado:
— Água do Boi agora entra na era da beleza. Porque beleza é saúde! E saúde é prioridade!
Ninguém entendeu nada, mas parecia bonito.
O primeiro kit foi entregue a dona Firmina, uma senhora de 78 anos, que cresceu ao lado da enxada, que nunca nem usou batom na vida.
Ela abriu a sacolinha e arregalou os olhos:
— Minha filha… isso aqui tá vencido!
Maria Vaidosa ignorou.
— É vintage! As blogueiras amam!
Outra moradora, mais ousada, cheirou o creme e fez careta.
— Isso aqui parece massa de bolo...
— É fórmula inovadora, minha senhora! — respondeu Maria, já perdendo a paciência. — Eu estudo essas coisas! Sou especialista nisso.
Mas a revolta começou quando as pessoas perceberam que os kits “doados” precisariam ser “formalmente adquiridos”, e que quem não assinasse o papel de recebimento com valor “simbólico” de 500 reais ficaria fora dos próximos programas sociais da prefeitura.
Foi o suficiente para o burburinho virar reclamação.
Duas horas depois, as redes sociais de Água do Boi ferviam. Fotos de batons quebrados, esmaltes vencidos, cremes suspeitos e unhas pintadas com aparência de tinta guache se espalharam pelo WhatsApp.
Um que fazia oposição foi o primeiro a farejar sangue:
— Quero documentos! Nota fiscal! Justificativa técnica! Quero tudo! — gritava na Câmara, como se estivesse denunciando um esquema na NASA.
Ao ser informada da “perseguição”, Maria Vaidosa ficou indignada:
— É um absurdo! O povo dessa cidade não entende o que é qualidade. A minha presença já melhora a autoestima de qualquer lugar!
Dentro do gabinete, Mão Grande andava de um lado para outro, suando.
— Maria, inventa alguma coisa aí! Diz que esse creme aí tem poder rejuvenescedor… espiritual, sei lá!
— Espiritual é ótimo! — ela comemorou. — Vou dizer que foi inspirado em tratamento coreano. O povo acredita nessas coisas.
— E diz que tu estudou isso em um workshop!
— Online, claro. Gratuito. Mas ninguém precisa saber desse detalhe.
O vereador Juranildo do Café, aquele que a Câmara Municipal paga rios de dinheiro para ele servir café ao prefeito no gabinete e fazer declarações de amor a Mão Grande nas reuniões, saiu em defesa do programa “Beleza para o Povo” e conseguiu acalmar os ânimos:
No final das contas, o programa não levantou a autoestima de ninguém. Mas levantou — e muito — a suspeita do Ministério Público, que agora quer saber por que kits de 12 reais foram comprados por 500 cada.
Maria Vaidosa segue dizendo que tudo é intriga da oposição.
E o povo de Água do Boi segue esperando, pois sabe que, com esse casal no comando, o único envelhecimento precoce é o do dinheiro público que some sem deixar rastro e, que, a única solução para limpar a pele da administração seria com uma esfoliação profunda nas urnas.
*Edelvânio Pinheiro é bacharel em Jornalismo pela Católica (UCA), foi editor do jornal Alerta de Teixeira de Freitas e correspondente do A Tarde, de Salvador, na extinta sucursal do extremo sul, e é diretor-geral do site Água Preta News. É também radialista, ex-chefe de jornalismo da Rádio Extremo Sul de Itamaraju e diretor-geral da Rádio Master FM, de Itanhém. Escritor, autor de sete obras, incluindo uma obra infantojuvenil publicada no Brasil e em Portugal pela editora Flamingo, possui licenciatura em Letras Vernáculas pela Universidade do Estado da Bahia (UNEB) e é pós-graduado em Ciências Políticas.
Clique nos títulos abaixo e leia os contos da série publicados até agora:
Quem vota em ladrão, rouba de si mesmo
Maria Vaidosa exigiu do prefeito Mão Grande um camarote na festa, mas não para qualquer um
A obra do prefeito Mão Grande que não acabava nunca
O batuque da bajulação ao prefeito Mão Grande, na cidade de Água do Boi
Festa e bajulação no aniversário de Maria Vaidosa
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