Em algum ponto perdido do mapa, e da vergonha também, existe Água do Boi, uma cidade pequena onde os escândalos andam mais rápido que a notícia e a honestidade. Lá governa o prefeito Mão Grande, homem de bolso fundo e mão ligeira, especialista em sumir com dinheiro público como quem tira doce de criança.
Ao lado dele está Maria Vaidosa, a primeira-dama que fala fino com gente rica e com cara fechada com gente pobre. Vive cercada de vestidos caros, perfumes importados e sorrisos calculados, enquanto prega uma moral que só vale para os outros. Juntos, eles formam o casal mais poderoso de Água do Boi, conduzindo a cidade como se fosse um palco, onde o povo sempre é a plateia que paga e nunca a estrela que brilha.
LEIA aqui o 1º conto dessa série: "Quem vota em ladrão, rouba de si mesmo"
E, desse jeito, a rotina daquela pacata e resignada cidade continuava, como se nada fosse novidade.
Naquela semana, Mão Grande acordou com uma ideia que não era dele. A sugestão veio de Maria Vaidosa, que tinha um talento especial para duas coisas: gastar o que não era dela e inventar estratégias para distrair o povo.
— Mão Grande, sabe o que falta nessa cidade? Uma grande festa! — disse ela, passando o batom preferido diante do espelho, como quem prepara o sorriso para a foto no camarote.
— Festa? Mas o povo tá é reclamando, e muito, nas redes sociais — arriscou o prefeito.
— E daí? — cortou Maria Vaidosa, prosseguindo. — Na Roma antiga, quando o imperador queria que o povo esquecesse as roubalheiras, dava pão e circo. Como aqui não tem pão, a gente dá só o circo mesmo.
Mão Grande, que também era chamado por ela de Mãozinha, adorou a ideia. Afinal, enquanto o povo dançava, ele podia continuar “fazendo seus trabalhos” nos cofres da cidade. E assim, em poucos dias, foi anunciado o maior evento que Água do Boi já viu, cinco noites e cinco madrugadas de festa.
Mas havia um detalhe importante. A pedido de Maria Vaidosa, o prefeito mandou construir, no espaço da festa, um camarote exclusivo. Ali não entrava qualquer um, apenas secretários municipais, vereadores, empresários especialistas em emitir notas frias, além de alguns parentes e amigos íntimos do casal. Gente que sabia beber uísque importado com gelo de água de coco sem deixar cair uma gota no chão e, claro, rir das piadas sem graça de Mão Grande que, no fundo, preferia mesmo era uma boa cachaça acompanhada de cerveja.
Enquanto isso, distante do camarote, o povo pobre se amontoava na chuva e no vento frio das noites e das madrugadas. Dançavam sem direito a uma cachaça sequer. Quem tentava se aproximar do camarote era afastado por seguranças pagos com o próprio dinheiro da população.
As cinco noites passaram rápido. Para Maria Vaidosa, foi um sucesso. Para Mão Grande, um investimento, afinal, cada abraço dado no camarote valia por uma licitação “ajustada” no futuro. Para o povo restou o cansaço, o bolso vazio e a certeza de que o pão e o circo de Roma tinham virado só circo, e um circo sem lona, onde a plateia apanha e os canalhas, fantasiados de palhaços governam.
Quando desmontaram o palco, Água do Boi voltou ao normal. Os buracos nas ruas continuavam abertos, o posto de saúde seguia sem médico e dentista, e a escola continuava oferecendo suco de saquinho e bolacha de sal.
E assim, entre gargalhadas, uísque e muito churrasco, Mão Grande e Maria Vaidosa seguiram seu reinado. E o povo, que nunca foi a Roma, continuava vivendo no império deles, onde o pão é raro, o circo é caro, e o riso sempre sai mais caro para quem está fora do camarote.
Fonte/Créditos: Conto de Edelvânio Pinheiro