ENTENDA a série "Contos de Domingo":
Em algum ponto perdido do mapa, e da vergonha também, existe Água do Boi, uma cidade pequena onde os escândalos andam mais rápido que a notícia e a honestidade. Lá governa o prefeito Mão Grande, homem de bolso fundo e mão ligeira, especialista em sumir com dinheiro público como quem tira doce de criança.
Ao lado dele está Maria Vaidosa, a primeira-dama que fala fino com gente rica e com cara fechada com gente pobre. Vive cercada de vestidos caros, perfumes importados e sorrisos calculados, enquanto prega uma moral que só vale para os outros. Juntos, eles formam o casal mais poderoso de Água do Boi, conduzindo a cidade como se fosse um palco, onde o povo sempre é a plateia que paga e nunca a estrela que brilha.
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Edelvânio Pinheiro*
Naquele domingo ensolarado, Maria Vaidosa acordou com uma ideia fixa. Ela queria ser secretária de Assistência Social de Água do Boi.
— Mãozinha, eu mereço esse cargo. Quem melhor do que eu para resolver os problemas dessa pobraiada? — disse ela, ajeitando o batom diante do espelho.
O prefeito Mão Grande, de ressaca do dia anterior, franziu a testa. Sabia que a mulher falava mais do que a boca, e cada frase dela nas redes sociais era um risco para sua estratégia de sobrevivência política.
— Vaidosa, minha flor, você não entende. Ser secretária não é só desfilar de salto alto e postar fotos no Instagram, é ouvir as lamúrias da população.
A primeira-dama ergueu o queixo, com ar de superioridade, mas rebateu com uma ponta de malícia:
— Ora, Mãozinha… eu sei muito bem me virar. Até sei falar baixinho com essa gente, me fazer de boazinha. Aquele dia que gritei com você foi porque você estava bêbado demais, não foi porque eu não sei me controlar. Fiz aquilo para o bem da nossa família e dos nossos amigos. Imaginou se a gente perdesse essa última oportunidade?
Mão Grande respirou fundo. Era justamente isso que ele temia, pois Maria Vaidosa acreditava que política era apenas encenação malfeita.
Ele sorriu com a calma de quem já havia prometido mundos e fundos, sem cumprir nada, claro:
— Veja bem, minha flor, o problema não é você. O problema é o povo, que não está pronto para o seu brilho.
Maria Vaidosa se deixou embalar pela lábia do marido. Saiu dali convencida de que a nomeação era só uma questão de tempo e que, logo, logo, Mão Grande a nomearia secretária de Assistência Social de Água do Boi.
Mas dentro dela já fervilhava um plano. Se fosse secretária, faria licitações milionárias de cestas básicas, e das cestas só entregaria meia dúzia, o suficiente para posar sorridente nas redes sociais. O resto, bem, o resto se transformaria em reforma de casas de seus familiar, compras de carros de luxo, apartamentos, além de vestidos, joias e viagens dos sonhos.
Em sua mente, Maria Vaidosa ensaiava os discursos. Ela diria, em tom moralista, que aquele povo pobre precisava parar de viver às custas da prefeitura. Enquanto pensava nisso, sua mente também buscava quem poderia lhe fornecer notas frias. Para ela, a pobreza era mais do que uma tragédia social; era um palco onde poderia exibir sua falsa generosidade e reforçar a vaidade de primeira-dama.
*Edelvânio Pinheiro é bacharel em Jornalismo pela Católica (UCA), foi editor do jornal Alerta de Teixeira de Freitas e correspondente do A Tarde, de Salvador, na extinta sucursal do extremo sul, e é diretor-geral do site Água Preta News. É também radialista, ex-chefe de jornalismo da Rádio Extremo Sul de Itamaraju e diretor-geral da Rádio Master FM, de Itanhém. Escritor, autor de sete obras, incluindo uma obra infantojuvenil publicada no Brasil e em Portugal pela editora Flamingo, possui licenciatura em Letras Vernáculas pela Universidade do Estado da Bahia (UNEB) e é pós-graduado em Ciências Políticas.
Clique nos títulos abaixo e leia os contos da série publicados até agora:
Quem vota em ladrão, rouba de si mesmo
Maria Vaidosa exigiu do prefeito Mão Grande um camarote na festa, mas não para qualquer um
A obra do prefeito Mão Grande que não acabava nunca
O batuque da bajulação ao prefeito Mão Grande, na cidade de Água do Boi
Festa e bajulação no aniversário de Maria Vaidosa
Maria Vaidosa e o vestido comprado com dinheiro da prefeitura