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Sexta-feira, 17 de Abril 2026
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Notícias / CONTOS DE DOMINGO

Mão Grande nomeou Maria Vaidosa secretária de Assistência Social de Água do Boi

Todo domingo o Água Preta News publica um conto da série.

Mão Grande nomeou Maria Vaidosa secretária de Assistência Social de Água do Boi
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ENTENDA a série "Contos de Domingo":

Em algum ponto perdido do mapa, e da vergonha também, existe Água do Boi, uma cidade pequena onde os escândalos andam mais rápido que a notícia e a honestidade. Lá governa o prefeito Mão Grande, homem de bolso fundo e mão ligeira, especialista em sumir com dinheiro público como quem tira doce de criança.

Ao lado dele está Maria Vaidosa, a primeira-dama que fala fino com gente rica e com cara fechada com gente pobre. Vive cercada de vestidos caros, perfumes importados e sorrisos calculados, enquanto prega uma moral que só vale para os outros. Juntos, eles formam o casal mais poderoso de Água do Boi, conduzindo a cidade como se fosse um palco, onde o povo sempre é a plateia que paga e nunca a estrela que brilha.

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Edelvânio Pinheiro*

Maria Vaidosa, enfim, após semanas de insistência, que variavam entre chiliques e conversa fiada na orelha do marido, conseguiu a nomeação. Era a nova secretária de Assistência Social de Água do Boi. O cargo combinava perfeitamente com sua imagem de benfeitora que ela cultivava com esmero nas redes sociais.

A posse, na segunda-feira, foi um evento. Vestido novo, discurso cheio de palavras como "solidariedade", "acolhimento" e "compromisso com os mais necessitados". Mas a terça-feira chegou, e com ela, a terrível realidade do trabalho.

Antes mesmo das nove da manhã, uma fila de pedintes de aplicativo, aposentados de chinelo descolado e mães com crianças no colo se formou à porta da secretaria. Era a pobraiada, como Maria Vaidosa sussurrou para si mesma, com um ar de quem cheirou leite azedo. Eles queriam comida, remédios, fraldas, reforma de casas.

Atrás de sua enorme mesa a nova secretária sentiu o mundo desabar. Um senhor de idade lhe contou, com detalhes, sobre seu problema de saúde. Uma senhora precisava de um dentista "pra ontem". A secretária-primeira-dama olhava para as próprias mãos, impecavelmente manicuradas, e via ali instrumentos de elegância, não para preencher formulários de miséria. Seu telefone pessoal vibrava sem parar. Eram as amigas cobrando as vagas que ela havia prometido distribuir na secretaria, caso o marido fosse eleito e ela nomeada.

Ao meio-dia, em estado de choque, ela invadiu a sala do prefeito Mão Grande, fechando a porta com um estrondo.
— Eu não aguento mais, Mãozinha! É um horror! Eu não te pedi para ser psicóloga de pobre! — esperneou Vaidosa, dramaticamente.

Mão Grande suspirou, olhando para a planilha de desvio de verdura da merenda escolar que estava analisando.
— Mas, minha Vaidosa, você queria o cargo... — resmungou, sem levantar os olhos.

— Queria o título! — rebateu ela, com a voz afiada como faca de cozinha. — Não o serviço. Você precisa me dar uma assessora. Uma assessora especial. Que faça o trabalho por mim. Alguém que saiba lidar com essa pobraiada.

O prefeito, que nunca deixou que um probleminha doméstico atrapalhasse seus esquemas maiores, aceitou. Era mais fácil nomear uma assessora do que ouvir aquele drama pelo resto do mandato.

No dia seguinte, Maria Vaidosa apareceu na secretaria com um batalhão de assessoras. Eram suas amigas mais próximas: Bibiana, da academia; Rita, da pastelaria; e a mais notória de todas, Lili Boca-de-Fogo.

Bibiana mantinha um caderninho secreto onde anotava cada palavra, olhar ou rumor que chegasse até ela. Rita transformava o corredor da secretaria em uma pista de vigilância, passando discretamente por trás de cada porta, observando quem entrava e saía. Lili tinha um talento especial, conseguia ouvir conversas do outro lado da rua sem que ninguém percebesse, e depois repetia tudo com detalhes apimentados.

Lili era uma figura lendária. Sabia de todos os segredos da cidade antes mesmo de eles acontecerem. Foi ela, inclusive, que no início da gestão, sussurrou no ouvido de Maria Vaidosa que Mão Grande havia contratado uma tal de Josefina, jovem e de culotes avantajados, para um cargo fantasma na prefeitura. Mas isso é assunto para outra ocasião.

O escritório da secretaria, lugar de trabalho burocrático, transformou-se em um café da manhã permanente. As “assessoras” ocupavam as cadeiras mais confortáveis, bebiam café gourmet e falavam mal de todo mundo. Maria Vaidosa era sempre a primeira a começar, comentando sobre as pessoas que não apoiavam politicamente o seu marido. A fila de necessitados do lado de fora crescia, e o trabalho de “assistir” socialmente passava a ser feito por meio de fofocas.

Lili, em particular, achou o emprego perfeito. Enquanto Maria Vaidosa ficava trancada em sua sala, atualizando o Instagram, Lili circulava pela fila para coletar informações.

E, assim, a Secretaria de Assistência Social de Água do Boi havia se tornado, oficialmente, o maior centro de inteligência e espionagem da cidade. Ninguém era assistido, mas todos eram vigiados. Maria Vaidosa e seu batalhão de assessoras passavam os dias mais preocupadas em bisbilhotar a vida alheia do que em distribuir qualquer tipo de ajuda, anotando cada fofoca como se fosse informação ultrassecreta.

Quanto ao prefeito Mão Grande, ele apenas balançava a cabeça. A incompetência da esposa era um preço pequeno a pagar pela paz. Afinal, era melhor tê-la ocupada com fofocas do que mexendo em suas planilhas que só o assessor para assuntos especiais, que ficava na sala ao lado, tinha acesso. O problema é que Maria Vaidosa era curiosa demais, vivia tentando descobrir para onde e para quem Mão Grande estava desviando o dinheiro da prefeitura.

 

*Edelvânio Pinheiro é bacharel em Jornalismo pela Católica (UCA), foi editor do jornal Alerta de Teixeira de Freitas e correspondente do A Tarde, de Salvador, na extinta sucursal do extremo sul, e é diretor-geral do site Água Preta News. É também radialista, ex-chefe de jornalismo da Rádio Extremo Sul de Itamaraju e diretor-geral da Rádio Master FM, de Itanhém. Escritor, autor de sete obras, incluindo uma obra infantojuvenil publicada no Brasil e em Portugal pela editora Flamingo, possui licenciatura em Letras Vernáculas pela Universidade do Estado da Bahia (UNEB) e é pós-graduado em Ciências Políticas.

 

Clique nos títulos abaixo e leia os contos da série publicados até agora:

Quem vota em ladrão, rouba de si mesmo

Maria Vaidosa exigiu do prefeito Mão Grande um camarote na festa, mas não para qualquer um

A obra do prefeito Mão Grande que não acabava nunca

O batuque da bajulação ao prefeito Mão Grande, na cidade de Água do Boi

Festa e bajulação no aniversário de Maria Vaidosa

Maria Vaidosa e o vestido comprado com dinheiro da prefeitura

Maria Vaidosa queria ser secretária: “Quem melhor do que eu para resolver os problemas dessa pobraiada?”

Mão Grande nomeou Maria Vaidosa secretária de Assistência Social de Água do Boi

 

Água Preta News

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Água Preta News

O Água Preta News começou a operar, oficialmente, em 30 de agosto de 2016. A data – dia e mês – é a mesma do aniversário do poeta e jornalista Almir Zarfeg, cuja obra poética de estreia, “Água Preta”, deu nome ao site de notícias e entretenimento.

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