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Sexta-feira, 17 de Abril 2026
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Notícias / CONTOS DE DOMINGO

A obra do prefeito Mão Grande que não acabava nunca

Ao lado do prefeito Mão Grande está Maria Vaidosa, a primeira-dama que fala fino com gente rica e com cara fechada com gente pobre.

A obra do prefeito Mão Grande que não acabava nunca
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Em algum ponto perdido do mapa, e da vergonha também, existe Água do Boi, uma cidade pequena onde os escândalos andam mais rápido que a notícia e a honestidade. Lá governa o prefeito Mão Grande, homem de bolso fundo e mão ligeira, especialista em sumir com dinheiro público como quem tira doce de criança.

Ao lado dele está Maria Vaidosa, a primeira-dama que fala fino com gente rica e com cara fechada com gente pobre. Vive cercada de vestidos caros, perfumes importados e sorrisos calculados, enquanto prega uma moral que só vale para os outros. Juntos, eles formam o casal mais poderoso de Água do Boi, conduzindo a cidade como se fosse um palco, onde o povo sempre é a plateia que paga e nunca a estrela que brilha.

 

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aqui o primeiro conto: "Quem vota em ladrão, rouba de si mesmo"

e aqui, o segundo: “Maria Vaidosa exigiu do prefeito Mão Grande um camarote na festa, mas não para qualquer um”

***

Certa manhã, Maria Vaidosa acordou inspirada. Desceu até a praça principal e viu que aquele espaço estava precisando de uma reforma. O prefeito anterior deixou as pérgolas todas danificadas.

— Mãozinha (era assim que ela o chamava quando queria levar vantagem), vamos fazer uma reforma urgente! Isso dá uma foto linda na reinauguração… e você sabe que vai sobrar um dinheirinho bom, como fizemos na reforma da rodoviária.

O prefeito sorriu. Em poucos dias, anunciou em rede social o que ele chamou de “revitalização histórica”, uma expressão muito bonita e providencial, daquelas que o povo repete sem entender direito, mas que serve para justificar qualquer valor na licitação, ainda mais quando se governa por decreto e sem a fiscalização de vereadores.

Então, a obra começou com um barulho danado, com máquinas, caminhões, gente medindo e anotando. A população até acreditou que, dessa vez, algo iria mudar. Mas logo perceberam que o ritmo não era de construção, e sim de teatro, bem ao estilo de Mão Grande e Maria Vaidosa. Cada semana tinha um capítulo. Ora faltava material, ora o empreiteiro “precisava ajustar o contrato”, e ora, mesmo em dias de sol, chovia.

No meio disso, Maria Vaidosa organizou uma visita “técnica” ao canteiro de obras. De salto alto e vestido comprado na boutique da amiga, seguia cercada de puxa-sacos, com o celular em mãos para garantir a melhor imagem. No discurso, falou sobre “o cuidado com o espaço público” e “o compromisso da gestão do marido com as famílias de Água do Boi”. Mal terminou, entrou no carro contartado pela prefeitura e seguiu para um almoço regado a vinho importado, pagos, claro, por um dos empresários amigos que ficou rico emitindo notas frias para a administração municipal.

Meses se passaram...

A praça, eternamente inacabada, transformou-se em um ótimo pretexto para que o dinheiro fosse parar em outros endereços e em finalidades nada republicanas.

Quando a população começou a reclamar, o prefeito apareceu em vídeo, com a já conhecida expressão ensaiada e palavras cuidadosamente polidas, atribuindo o atraso à “burocracia e à crise do país”. Para encerrar a encenação, prometeu uma reinauguração “em grande estilo”, assim que fosse possível.

Até hoje, ninguém sabe quando. Alguns arriscam que será no próximo verão; outros juram que só acontecerá no dia em que Água do Boi tiver médicos e dentistas atendendo todos os dias no hopistal e nos postos de saúde, ou seja, nunca.

Enquanto isso, Mão Grande e Maria Vaidosa seguem sua rotina impecável. Ela inventa obras, ele inventa discursos, e o povo é obrigado a inventar paciência. Porque Água do Boi é governada pelo casal que, com uma velocidade impressionante, aprendeu a transformar gestão pública em negócio, e negócio em patrimônio particular da família e dos amiguinhos endinheirados.

Fonte/Créditos: Conto de Edelvânio Pinheiro

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O Água Preta News começou a operar, oficialmente, em 30 de agosto de 2016. A data – dia e mês – é a mesma do aniversário do poeta e jornalista Almir Zarfeg, cuja obra poética de estreia, “Água Preta”, deu nome ao site de notícias e entretenimento.

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