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Sexta-feira, 17 de Abril 2026
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Maria Vaidosa e o vestido comprado com dinheiro da prefeitura

Do lado de fora, o povo de Água do Boi assistia à cena. O silêncio era pontuado por comentários ácidos e risos nervosos.

Maria Vaidosa e o vestido comprado com dinheiro da prefeitura
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ENTENDA a série "Contos de Domingo":

Em algum ponto perdido do mapa, e da vergonha também, existe Água do Boi, uma cidade pequena onde os escândalos andam mais rápido que a notícia e a honestidade. Lá governa o prefeito Mão Grande, homem de bolso fundo e mão ligeira, especialista em sumir com dinheiro público como quem tira doce de criança.

Ao lado dele está Maria Vaidosa, a primeira-dama que fala fino com gente rica e com cara fechada com gente pobre. Vive cercada de vestidos caros, perfumes importados e sorrisos calculados, enquanto prega uma moral que só vale para os outros. Juntos, eles formam o casal mais poderoso de Água do Boi, conduzindo a cidade como se fosse um palco, onde o povo sempre é a plateia que paga e nunca a estrela que brilha.

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Edelvânio Pinheiro*

Maria Vaidosa entrou no salão. Cada passo seu era um tilintar de cifras, um sussurro de notas fiscais. Seu vestido além de muito caro era a própria encarnação do orçamento municipal. Forjado em cetim de algodão fino, sua verdadeira textura vinha de milhares de cédulas de real, meticulosamente costuradas umas às outras como escamas de um dragão furioso pelo poder. Algumas eram novas, estaladas, ostentando o azul vibrantes. Outras, amassadas e sujas, contavam histórias de impostos pagos a contragosto. Quando a luz dos holofotes atingia, o vestido cintilava de forma obscena, um monumento móvel à vaidade e ao desvio do dinheiro do povo.

Ela sorria para os bajuladores com os celulares em punho, ansiosos por conseguir a melhor foto, abanava levemente as mãos e lançava olhares que diziam ‘Olhem para mim, sou a obra-prima que o dinheiro de vocês comprou’.

Do lado de fora, o povo de Água do Boi assistia à cena. O silêncio era pontuado por comentários ácidos e risos nervosos.

— Esse vestido deve ter saído direto da verba da saúde! — murmurou uma senhora, segurando a receita de um remédio não podia comprar e que não encontrou na farmácia da prefeitura.
— Cada franja é uma merenda escolar que sumiu… — completou outra, com os braços cruzados.
— E minha geladeira continua vazia — disse um homem, e a piada amarga se espalhou pelo grupo como um suspiro coletivo.

No centro do salão, o prefeito Mão Grande, de terno impecável, ostentava um sorriso largo. Seu orgulho era o de um empreiteiro diante de sua obra mais polêmica. Ele adorava a ideia dela representar o poder que pode ser comprado, medido e exibido. Para Mão Grande, ou Mãozinha, como ela o tratava na intimidade, o gasto exorbitante era irrelevante; o que importava era a visibilidade, a foto perfeita que seria publicada no site da cidade, o Pod Boi News e, claro, os aplausos ensaiados dos bajuladores que tinham emprego garantido na prefeitura para exercer a funçao de puxa-saco.

No camarote, esses aliados se aglomeravam, formando um coro de bajulação. Aproximavam-se com cuidado, quase temendo tocar no vestido, como se suas mãos pudessem profanar um artefato sagrado.

— Uma obra de arte! Olhem a precisão das costuras! Cada nota no lugar certo! — exclamou um, fingindo admirar a técnica.
— É a representação física da nossa gestão; forte, resiliente e de valor inquestionável! — vociferou outro, erguendo a taça de champanhe.

E todos aplaudiam, embora soubessem, no fundo, que estavam aplaudindo o próprio esqueleto de sua moralidade sendo vendido em leilão.

O povo, excluído do baile, desenvolveu rapidamente sua própria linguagem de protesto, afiada pela ironia. Batizaram o vestido de “a cesta básica de Maria Vaidosa”, uma piada que doía ao ser contada.

Crianças nas ruas de terra brincavam de "desfilar o dinheiro", imitando suas poses com folhas que caíam das árvores presas à roupa. Comerciantes astutos, aproveitavam o momento e colavam recortes do rosto da primeira-dama sorridente nas vitrines, ao lado de produtos de qualidade duvidosa, anunciando: “Aprovado por Maria Vaidosa! O luxo está ao seu alcance!”

E assim, em Água do Boi, o vestido deixou de ser um simples traje. Transformou-se no símbolo definitivo do abismo entre os cofres da prfeitura e a rua, entre a ostentação e a necessidade, entre a fotografia que congelava um sorriso e a vida real que escorria entre os dedos. Maria Vaidosa continuava a sorrir, surda ao murmúrio que vinhza de fora, enquanto o povo, à sua maneira, aprendia que rir da própria raiva era o único jeito de não chorar e de manter um fio de sanidade diante daquele absurdo, até a próxima eleição chegar.

 

*Edelvânio Pinheiro é bacharel em Jornalismo pela Católica (UCA), foi editor do jornal Alerta de Teixeira de Freitas e correspondente do A Tarde, de Salvador, na extinta sucursal do extremo sul, e é diretor-geral do site Água Preta News. É também radialista, ex-chefe de jornalismo da Rádio Extremo Sul de Itamaraju e diretor-geral da Rádio Master FM, de Itanhém. Escritor, autor de sete obras, incluindo uma obra infantojuvenil publicada no Brasil e em Portugal pela editora Flamingo, possui licenciatura em Letras Vernáculas pela Universidade do Estado da Bahia (UNEB) e é pós-graduado em Ciências Políticas.

 

Clique nos títulos abaixo e leia os contos da série publicados até agora:

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Água Preta News

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Água Preta News

O Água Preta News começou a operar, oficialmente, em 30 de agosto de 2016. A data – dia e mês – é a mesma do aniversário do poeta e jornalista Almir Zarfeg, cuja obra poética de estreia, “Água Preta”, deu nome ao site de notícias e entretenimento.

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