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Segunda-feira, 08 de Dezembro 2025

CONTOS DE DOMINGO

O batuque da bajulação ao prefeito Mão Grande, na cidade de Água do Boi

Maria Vaidosa, claro, estava lá. Sentada em uma cadeira reservada com exclusividade para ela.

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Por Água Preta News
O batuque da bajulação ao prefeito Mão Grande, na cidade de Água do Boi
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ENTENDA a série "Contos de Domingo":

Em algum ponto perdido do mapa, e da vergonha também, existe Água do Boi, uma cidade pequena onde os escândalos andam mais rápido que a notícia e a honestidade. Lá governa o prefeito Mão Grande, homem de bolso fundo e mão ligeira, especialista em sumir com dinheiro público como quem tira doce de criança.

Ao lado dele está Maria Vaidosa, a primeira-dama que fala fino com gente rica e com cara fechada com gente pobre. Vive cercada de vestidos caros, perfumes importados e sorrisos calculados, enquanto prega uma moral que só vale para os outros. Juntos, eles formam o casal mais poderoso de Água do Boi, conduzindo a cidade como se fosse um palco, onde o povo sempre é a plateia que paga e nunca a estrela que brilha.

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Edelvânio Pinheiro*

Em Água do Boi, ninguém mais se engana. Vereador ali não é fiscal do povo, é só funcionário de luxo do prefeito Mão Grande. É claro que não são todos, mas boa parte deles trata o voto recebido como moeda de troca para encaixar parentes e amigos influentes em cargos na prefeitura. Então, fiscalizar o dinheiro público nem pensar. O trabalho mesmo é bater palmas em sessão da Câmara Municipal e repetir elogios decorados como se fossem papagaios em cima do poleiro.

E os elogios têm endereço certo. Primeiro vão para os secretários municipais, depois desembocam no altar improvisado de Mão Grande. Mas a campeã das bajulações é sempre Maria Vaidosa, a primeira-dama que, além de desfilar vestidos novos pelas ruas da cidade, ocupa a Secretaria da Assistência Social. Não passa uma reunião sem que alguém diga que ela é “incansável”, “dedicada” e “um exemplo para as mulheres e homens de Água do Boi”, adjetivos que a plateia já decora de tanto ouvir, mas que ninguém consegue enxergar na prática.

Tem vereador que praticamente mudou de endereço para o gabinete do prefeito. Gente jura que ele já pediu até chave própria, de tanto que frequenta o espaço. Quem serve cafezinho para o prefeito lá é ele, a copeira da prefeitura nem mais tem esse trabalho. Alguns arriscam que o cargo dele na verdade não é de vereador, mas de chefe de gabinete, tamanha a disposição para atender às ordens de Mão Grande.

E como se não bastasse a encenação nas reuniões, ainda tem a parte festiva. Recentemente, em mais uma das regadas confraternizações que o prefeito gosta de organizar, regadas à famosa “cachaça com licor de jenipapo e raspas de orçamento público, a cena foi de cair o queixo. Esse mesmo vereador que serve café no gabinete, bateu a zabumba enquanto Mão Grande fingia tocar uma sanfona de oito baixos, sem tirar um som sequer. Mas fingir é o que ele faz de melhor, seja no palco improvisado da festa, seja no palco oficial da política.

Maria Vaidosa, claro, estava lá. Sentada em uma cadeira reservada com exclusividade para ela, aplaudia como se estivesse diante de uma orquestra sinfônica em Viena. Entre palmas e sorrisos milimetricamente calculados, aproveitava para ser fotografada pelas amigas temporárias de plantão, transformando aquela farsa em material para postar nas redes sociais como se fosse “um momento de valorização da cultura popular”.

No fundo, todos sabiam. Ali não havia cultura, não havia música, não havia verdade. Só havia o velho espetáculo da bajulação, em que vereadores, prefeito e primeira-dama tocam a mesma melodia desafinada do interesse próprio.

Mas o povo, figura central em qualquer sociedade, ficou fora do conto deste domingo...

Ah! O povo assiste, paga a conta e ainda é obrigado a aplaudir esse espetáculo vergonhoso, deprimente e grotesco. Uma encenação barata, repetida à exaustão, que transforma a política em circo, onde os palhaços não são os que estão no picadeiro, mas os que, de fora, sustentam a lona com suor e paciência, à espera da próxima oportunidade de se manifestar nas urnas.

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*Edelvânio Pinheiro é bacharel em Jornalismo pela Católica (UCA), foi editor do jornal Alerta de Teixeira de Freitas e correspondente do A Tarde, de Salvador, na extinta sucursal do extremo sul, e é diretor-geral do site Água Preta News. É também radialista, ex-chefe de jornalismo da Rádio Extremo Sul de Itamaraju e diretor-geral da Rádio Master FM, de Itanhém. Escritor, autor de sete obras, incluindo uma obra infantojuvenil publicada no Brasil e em Portugal pela editora Flamingo, possui licenciatura em Letras Vernáculas pela Universidade do Estado da Bahia (UNEB) e é pós-graduado em Ciências Políticas.

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