ENTENDA a série "Contos de Domingo":
Em algum ponto perdido do mapa, e da vergonha também, existe Água do Boi, uma cidade pequena onde os escândalos andam mais rápido que a notícia e a honestidade. Lá governa o prefeito Mão Grande, homem de bolso fundo e mão ligeira, especialista em sumir com dinheiro público como quem tira doce de criança.
Ao lado dele está Maria Vaidosa, a primeira-dama que fala fino com gente rica e com cara fechada com gente pobre. Vive cercada de vestidos caros, perfumes importados e sorrisos calculados, enquanto prega uma moral que só vale para os outros. Juntos, eles formam o casal mais poderoso de Água do Boi, conduzindo a cidade como se fosse um palco, onde o povo sempre é a plateia que paga e nunca a estrela que brilha.
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Edelvânio Pinheiro*
Em Água do Boi, o progresso andava de muletas, mas a vaidade da mulher de Mão Grande desfilava em salto alto. O seu sistema de “assistência social”, criado assim que o marido a nomeou secretária, era de uma eficiência rara: bastava ela suspirar por algo e o dinheiro público já se punha a serviço do desejo.
A principal engrenagem desse governo de boas intenções era o Posto Ligeiro. O nome “Ligeiro” vinha, ironicamente, do fato de o dono ter se tornado milionário em uma rapidez estonteante, depois de se alinhar politicamente ao prefeito Mão Grande. O esquema era simples e certeiro: toda vez que surgia uma “necessidade da secretaria de Maria Vaidosa” — um vestido para uma reunião na capital, um perfume francês para uma solenidade qualquer —, o motorista dela aparecia por lá. Não para encher o tanque do carro, mas para encher a vaidade da secretária.
— A secretária mandou dizer que precisa de dez mil. Ela disse que é pra uma demanda estratégica.
O dono do posto entregava o dinheiro, mas a cara dele era um retrato da aflição — parecia que tinha engolido um limão sem açúcar. O problema não era o prejuízo — disso ele já estava vacinado —, pois a nota fria logo repunha a grana. O que cansava o empresário era a ladainha: a mesma história, o mesmo teatro, a mesma “necessidade urgente da secretaria”. Ele suspirava, pegava a caneta e preenchia uma nota fiscal de combustível que nunca havia sido abastecido — um “abastecimento fantasma” digno de Oscar. Depois, enviava o papel para a contabilidade da prefeitura, como se fosse uma despesa legítima qualquer. O dinheiro saía do caixa do posto e voltava, limpinho, lavado e sorridente, dos cofres públicos. Um ciclo perfeito — e podre, como tudo que reluz no meio político em Água do Boi.
Um certo dia, cansado da cumplicidade, o dono do posto procurou Mão Grande, que se encontrava na praça principal da cidade, discursando sobre "transparência".
— Prefeito, com todo respeito, isto não pode continuar — suplicou, baixando a voz. — Isto é posto de gasolina, não é cofre particular. Já estou com vergonha de olhar para os meus frentistas. Toda hora é a mesma chatice: ela chega, eu libero o dinheiro e tenho que inventar uma nota de combustível que nunca existiu. Tudo bem que isso não me deixa liso de moral nem de dinheiro, mas tá chato essa situação!
Mão Grande coçou o queixo, seus olhos evitando os do amigo empresário.
— Calma, meu jovem! É uma questão de logística. A primeira-dama está se adaptando aos fluxos de caixa. É como se fosse um treinamento. Vai compreendendo isso aí, você sempre foi nosso parceiro.
Naquela noite, depois de tomar umas três pingas, Mão Grande chegou em casa irritado.
— Vaidosa, isto já passou dos limites! O cara não aguenta mais a chatice de ficar fazendo nota fria pra você!
Enrolando os cabelos diante do espelho, Vaidosa nem se virou.
— Chatice é eu, primeira-dama desta cidade, ter que me repetir. E outra: se ele está incomodado, que pare. Você é o prefeito, manda outra pessoa fazer o serviço, o que bem tem na cidade é posto de gasolina.
O clímax veio na festa junina. Maria Vaidosa surgiu desfilando no arraial com um vestido novo, uma explosão de rendas vermelhas que parecia gritar “dinheiro público bem aplicado”. O povo parou pra olhar, e ela, é claro, fingiu modéstia, abanando o leque como quem diz: “imagina, foi baratinho”.
Lá estava também o dono do posto, com seu sorriso de quem sabe demais e dorme de menos. Foi prestigiar o prefeito, é o que dizia. Mas a verdade é que a prefeitura era a mina de onde ele tirava o ouro. Precisava manter as aparências, pois já era prisioneiro de um triângulo nada amoroso: Mão Grande, Maria Vaidosa e ele, amarrados num pacto de vaidade, gasolina e notas frias.
No dia seguinte, os moradores comentavam, com a sabedoria prática de quem entende o jogo:
— Ouvi dizer que o Posto Ligeiro agora batizou os combustíveis. A gasolina se chama Vaidade Aditivada, o álcool virou Nota Etílica e o diesel atende por Reembolso S-10.
— É o único posto que abastece sem precisar encher o tanque — completou outro, arrancando risadas na roda de amigos.
No fim das contas, o povo de Água do Boi entendeu a equação perversa: o problema não era o dinheiro que sumia, mas o que aparecia no lugar dele — uma papelada carimbada, que dava aparência de certo ao que nascia torto.
Enquanto isso, Maria Vaidosa seguia firme em sua missão de “cuidar dos necessitados”, e Mão Grande descobria, da pior forma, que há parcerias que não quebram o caixa, mas quebram o caráter e deixam os pobres morrerem à míngua. Porque quando o posto vira banco, o povo é quem paga a conta.
*Edelvânio Pinheiro é bacharel em Jornalismo pela Católica (UCA), foi editor do jornal Alerta de Teixeira de Freitas e correspondente do A Tarde, de Salvador, na extinta sucursal do extremo sul, e é diretor-geral do site Água Preta News. É também radialista, ex-chefe de jornalismo da Rádio Extremo Sul de Itamaraju e diretor-geral da Rádio Master FM, de Itanhém. Escritor, autor de sete obras, incluindo uma obra infantojuvenil publicada no Brasil e em Portugal pela editora Flamingo, possui licenciatura em Letras Vernáculas pela Universidade do Estado da Bahia (UNEB) e é pós-graduado em Ciências Políticas.
Clique nos títulos abaixo e leia os contos da série publicados até agora:
Quem vota em ladrão, rouba de si mesmo
Maria Vaidosa exigiu do prefeito Mão Grande um camarote na festa, mas não para qualquer um
A obra do prefeito Mão Grande que não acabava nunca
O batuque da bajulação ao prefeito Mão Grande, na cidade de Água do Boi
Festa e bajulação no aniversário de Maria Vaidosa
Maria Vaidosa e o vestido comprado com dinheiro da prefeitura
Mão Grande nomeou Maria Vaidosa secretária de Assistência Social de Água do Boi
Quando o posto de gasolina vira banco os pobres morrem à míngua
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