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Quarta-feira, 21 de Janeiro 2026
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Maria Vaidosa e o livro que quase acabou com seu casamento

Lili Boca-de-Fogo, a maior especialista em intrigas do município,

Maria Vaidosa e o livro que quase acabou com seu casamento
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ENTENDA a série "Contos de Domingo":

Em algum ponto perdido do mapa, e da vergonha também, existe Água do Boi, uma cidade pequena onde os escândalos andam mais rápido que a notícia e a honestidade. Lá governa o prefeito Mão Grande, homem de bolso fundo e mão ligeira, especialista em sumir com dinheiro público como quem tira doce de criança.

Ao lado dele está Maria Vaidosa, a primeira-dama que fala fino com gente rica e com cara fechada com gente pobre. Vive cercada de vestidos caros, perfumes importados e sorrisos calculados, enquanto prega uma moral que só vale para os outros. Juntos, eles formam o casal mais poderoso de Água do Boi, conduzindo a cidade como se fosse um palco, onde o povo sempre é a plateia que paga e nunca a estrela que brilha.

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Edelvânio Pinheiro*

Em Água do Boi, onde a fofoca corre mais ligeiro que carro de som em tempo de eleição, bastou um livro cair nas mãos erradas pra cidade entrar em guerra. Tudo começou quando alguém — ninguém sabe se por maldade ou inocência — deu de presente a Maria Vaidosa um exemplar de Dom Casmurro, de Machado de Assis.

No começo, Maria achou que era um romance qualquer. Folheou as primeiras páginas achando que Bentinho e Capitu eram algum casal de novela antiga. Mas bastou chegar na parte em que Bentinho começa a desconfiar que foi traído pra o veneno da dúvida escorrer, feito tinta fresca, na cabeça da primeira-dama de Água do Boi.

Foi aí que entrou em cena Lili Boca-de-Fogo, a maior especialista em intrigas do município, uma mulher que, se tivesse continuado seus estudos, seria doutora em fofoca aplicada. Bastou saber que Vaidosa estava lendo o tal livro pra aparecer na casa dela, com aquele sorriso de quem cheira escândalo no ar.

— Menina, esse livro é perigoso — disse Lili, abanando o rosto com a mão cheia de anéis. — Bentinho desconfiou de Capitu porque ela tinha “olhos de ressaca”. Já pensou se Mão Grande também anda com alguma Capitu por aí?

Maria Vaidosa deu um pulo. — Deus me livre, Lili! Ele tá é na capital, em busca de obras para desenvolver o município, que tá com o comércio falido.

Lili deu uma risadinha que misturava pena e deboche. — Obras? Desde quando Mão Grande traz alguma coisa de lá, além de conversa fiada e nota de hotel?

A semente da dúvida estava plantada.

Nos dias seguintes, Maria Vaidosa começou a juntar os indícios com a mesma dedicação de Bentinho. O perfume diferente na camisa do marido, a demora nas viagens, o celular sempre virado pra baixo. Até as desculpas políticas começaram a soar como falas ensaiadas.

—  Tô tratando de emenda parlamentar, meu amor.  — dizia Mão Grande, ajeitando o paletó.

—  Emenda ou emendaço?  — murmurava Maria, lembrando das páginas do livro.

Enquanto isso, Lili Boca-de-Fogo fazia questão de soprar vento no fogo da imaginação. Na feira, no salão, no grupo da igreja, ela espalhava:

— Maria Vaidosa tá igual a Bentinho, coitada! Desconfiada e com o coração apertado. Dizem que Mão Grande anda muito bem acompanhado na capital...

O boato cresceu mais rápido que promessa de campanha. E Vaidosa já via Capitu em cada mulher de salto alto que aparecia nas fotos do prefeito.

Um dia, tomada pela fúria literária, ela esperou o marido chegar e o recebeu com o livro na mão:

— Mão Grande, me diga uma coisa: você é Bentinho ou é Escobar nessa história?

Ele, sem entender nada, tentou rir.

— Que história, mulher? Eu sou prefeito!

— Pois devia era ser personagem de romance — retrucou ela. — Só vive inventando enredo pra enganar trouxa! Você engana a população de Água do Boi, não a mim.

Dizem que Mão Grande ficou sem chão, que a briga durou mais de uma semana e que Lili Boca-de-Fogo, de longe, assistia tudo com um sorrisinho de satisfação — afinal, ela era a verdadeira autora do capítulo mais movimentado da política conjugal de Água do Boi.

E assim, Dom Casmurro virou leitura proibida por lá. Maria Vaidosa jurou que nunca mais abriria um livro, porque “literatura dá ideia errada na cabeça de mulher direita”. Já Lili Boca-de-Fogo continua firme, procurando outro título pra provocar o próximo escândalo.

Já que, em Água do Boi, a vida imita a arte e a fofoca e a mentira são sempre a melhor narrativa, quando encontrar Lili por aí, vou falar pra ela sobre O Primo Basílio, de Eça de Queirós, e O Cortiço, de Aluísio Azevedo.

 

*Edelvânio Pinheiro é bacharel em Jornalismo pela Católica (UCA), foi editor do jornal Alerta de Teixeira de Freitas e correspondente do A Tarde, de Salvador, na extinta sucursal do extremo sul, e é diretor-geral do site Água Preta News. É também radialista, ex-chefe de jornalismo da Rádio Extremo Sul de Itamaraju e diretor-geral da Rádio Master FM, de Itanhém. Escritor, autor de sete obras, incluindo uma obra infantojuvenil publicada no Brasil e em Portugal pela editora Flamingo, possui licenciatura em Letras Vernáculas pela Universidade do Estado da Bahia (UNEB) e é pós-graduado em Ciências Políticas.

 

Clique nos títulos abaixo e leia os contos da série publicados até agora:

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O Água Preta News começou a operar, oficialmente, em 30 de agosto de 2016. A data – dia e mês – é a mesma do aniversário do poeta e jornalista Almir Zarfeg, cuja obra poética de estreia, “Água Preta”, deu nome ao site de notícias e entretenimento.

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