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Sexta-feira, 17 de Abril 2026
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Notícias / CONTOS DE DOMINGO

Maria Vaidosa reclama que o dinheiro da prefeitura não está sendo dividido direito

Em Água do Boi o castigo dos corruptos um dia chega.

Maria Vaidosa reclama que o dinheiro da prefeitura não está sendo dividido direito
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ENTENDA a série "Contos de Domingo":

Em algum ponto perdido do mapa, e da vergonha também, existe Água do Boi, uma cidade pequena onde os escândalos andam mais rápido que a notícia e a honestidade. Lá governa o prefeito Mão Grande, homem de bolso fundo e mão ligeira, especialista em sumir com dinheiro público como quem tira doce de criança.

Ao lado dele está Maria Vaidosa, a primeira-dama que fala fino com gente rica e com cara fechada com gente pobre. Vive cercada de vestidos caros, perfumes importados e sorrisos calculados, enquanto prega uma moral que só vale para os outros. Juntos, eles formam o casal mais poderoso de Água do Boi, conduzindo a cidade como se fosse um palco, onde o povo sempre é a plateia que paga e nunca a estrela que brilha.

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***

Edelvânio Pinheiro*

Na casa do prefeito de Água do Boi, o silêncio da manhã só foi quebrado quando Maria Vaidosa bateu a mão na mesa do café, fazendo o açúcar pular do pote.

— Isso não tá certo, Mão Grande! — gritou ela, com aquele tom de quem sempre tem razão. — Desde que a gente ganhou a eleição, eu só vejo você ajudando seus parentes. É irmã, sobrinho, primo... até aquele seu irmão preguiçoso tá ganhando dinheiro da prefeitura!

Ainda de pijama, Mão Grande largou o pão com manteiga e olhou pra esposa como quem encara uma denúncia da Justiça Federal.

— Maria Vaidosa, você não tem jeito. Coloquei seu salão pra funcionar, te dei carro novo, ajeitei a parada da casa de seu irmão, deixei você comandar a Secretaria de Assistência Social pra arrumar nota fria com seus amigos, e ainda vem me dizer isso?

Ela cruzou os braços, revirando os olhos como quem fazia cálculo de desvio.

— Isso é o mínimo, Mão Grande. A gente combinou, lembra? Antes de ser eleito, lá na varanda da fazenda de seu Raimundo. Você disse que tudo o que a gente pegar da prefeitura vai ser dividido igualzinho. Cinquenta pra você, cinquenta pra mim! Cem pra você, cem pra mim!

Mão Grande engoliu seco.

— O problema, Vaidosa, é que você gasta demais. — retrucou ele. — Toda semana tem roupa nova, maquiagem cara, viagem pra comprar perfume importado. Parece que o dinheiro da prefeitura é poço sem fundo!

Ela riu, debochada.

— E não é? O povo de Água do Boi é tão bonzinho… não reclama de nada! Pode faltar médico, remédio, merenda… mas festa não pode faltar!

— Isso é verdade — concordou Mão Grande, tomando um gole do café. — O povo gosta de forró, cachaça e foguete. Enquanto tiver show, ninguém pergunta onde tá o dinheiro.

O silêncio seguinte foi cúmplice. Ambos sabiam que falavam a mesma língua — a língua da ganância.

Mas Vaidosa voltou ao ataque:

— Mesmo assim, eu quero minha parte justa. Tô sabendo que você mandou fazer um depósito lá na capital, no nome do seu primo.

— E quem foi que te contou isso? — perguntou o prefeito, fingindo indignação.

— Eu tenho meus informantes, meu bem. — respondeu ela, ajeitando o cabelo e soltando um sorrisinho venenoso. — E se você quiser jogar sujo, eu também sei brincar disso.

Mão Grande respirou fundo. Sabia que, em Água do Boi, ninguém o metia tanto medo quanto a própria esposa.

— Tá certo, Vaidosa. Vamos fazer o seguinte, metade pra mim, metade pra você. Igualzinho o combinado. Mas pelo amor de Deus, não me venha falar disso em voz alta, que as paredes têm ouvidos.

Mal ele terminou a frase, ouviram um barulho vindo da cozinha. A empregada, dona Fátima, deixou cair a bandeja e empalideceu.

— Eu... eu não ouvi nada, seu prefeito! — gaguejou ela, recolhendo os cacos.

Maria Vaidosa sorriu e piscou para o marido.

— Viu só, Mão Grande? As paredes têm ouvidos… e as empregadas também.

E lá se foi dona Fátima, tremendo de medo — mas com o celular gravando a conversa todinha, prontinha pra viralizar na internet a qualquer momento.

Porque em Água do Boi, o castigo dos corruptos um dia chega.

 

*Edelvânio Pinheiro é bacharel em Jornalismo pela Católica (UCA), foi editor do jornal Alerta de Teixeira de Freitas e correspondente do A Tarde, de Salvador, na extinta sucursal do extremo sul, e é diretor-geral do site Água Preta News. É também radialista, ex-chefe de jornalismo da Rádio Extremo Sul de Itamaraju e diretor-geral da Rádio Master FM, de Itanhém. Escritor, autor de sete obras, incluindo uma obra infantojuvenil publicada no Brasil e em Portugal pela editora Flamingo, possui licenciatura em Letras Vernáculas pela Universidade do Estado da Bahia (UNEB) e é pós-graduado em Ciências Políticas.

 

Clique nos títulos abaixo e leia os contos da série publicados até agora:

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O Água Preta News começou a operar, oficialmente, em 30 de agosto de 2016. A data – dia e mês – é a mesma do aniversário do poeta e jornalista Almir Zarfeg, cuja obra poética de estreia, “Água Preta”, deu nome ao site de notícias e entretenimento.

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