ENTENDA a série "Contos de Domingo":
Em algum ponto perdido do mapa, e da vergonha também, existe Água do Boi, uma cidade pequena onde os escândalos andam mais rápido que a notícia e a honestidade. Lá governa o prefeito Mão Grande, homem de bolso fundo e mão ligeira, especialista em sumir com dinheiro público como quem tira doce de criança.
Ao lado dele está Maria Vaidosa, a primeira-dama que fala fino com gente rica e com cara fechada com gente pobre. Vive cercada de vestidos caros, perfumes importados e sorrisos calculados, enquanto prega uma moral que só vale para os outros. Juntos, eles formam o casal mais poderoso de Água do Boi, conduzindo a cidade como se fosse um palco, onde o povo sempre é a plateia que paga e nunca a estrela que brilha.
***
Edelvânio Pinheiro*
Na casa do prefeito de Água do Boi, o silêncio da manhã só foi quebrado quando Maria Vaidosa bateu a mão na mesa do café, fazendo o açúcar pular do pote.
— Isso não tá certo, Mão Grande! — gritou ela, com aquele tom de quem sempre tem razão. — Desde que a gente ganhou a eleição, eu só vejo você ajudando seus parentes. É irmã, sobrinho, primo... até aquele seu irmão preguiçoso tá ganhando dinheiro da prefeitura!
Ainda de pijama, Mão Grande largou o pão com manteiga e olhou pra esposa como quem encara uma denúncia da Justiça Federal.
— Maria Vaidosa, você não tem jeito. Coloquei seu salão pra funcionar, te dei carro novo, ajeitei a parada da casa de seu irmão, deixei você comandar a Secretaria de Assistência Social pra arrumar nota fria com seus amigos, e ainda vem me dizer isso?
Ela cruzou os braços, revirando os olhos como quem fazia cálculo de desvio.
— Isso é o mínimo, Mão Grande. A gente combinou, lembra? Antes de ser eleito, lá na varanda da fazenda de seu Raimundo. Você disse que tudo o que a gente pegar da prefeitura vai ser dividido igualzinho. Cinquenta pra você, cinquenta pra mim! Cem pra você, cem pra mim!
Mão Grande engoliu seco.
— O problema, Vaidosa, é que você gasta demais. — retrucou ele. — Toda semana tem roupa nova, maquiagem cara, viagem pra comprar perfume importado. Parece que o dinheiro da prefeitura é poço sem fundo!
Ela riu, debochada.
— E não é? O povo de Água do Boi é tão bonzinho… não reclama de nada! Pode faltar médico, remédio, merenda… mas festa não pode faltar!
— Isso é verdade — concordou Mão Grande, tomando um gole do café. — O povo gosta de forró, cachaça e foguete. Enquanto tiver show, ninguém pergunta onde tá o dinheiro.
O silêncio seguinte foi cúmplice. Ambos sabiam que falavam a mesma língua — a língua da ganância.
Mas Vaidosa voltou ao ataque:
— Mesmo assim, eu quero minha parte justa. Tô sabendo que você mandou fazer um depósito lá na capital, no nome do seu primo.
— E quem foi que te contou isso? — perguntou o prefeito, fingindo indignação.
— Eu tenho meus informantes, meu bem. — respondeu ela, ajeitando o cabelo e soltando um sorrisinho venenoso. — E se você quiser jogar sujo, eu também sei brincar disso.
Mão Grande respirou fundo. Sabia que, em Água do Boi, ninguém o metia tanto medo quanto a própria esposa.
— Tá certo, Vaidosa. Vamos fazer o seguinte, metade pra mim, metade pra você. Igualzinho o combinado. Mas pelo amor de Deus, não me venha falar disso em voz alta, que as paredes têm ouvidos.
Mal ele terminou a frase, ouviram um barulho vindo da cozinha. A empregada, dona Fátima, deixou cair a bandeja e empalideceu.
— Eu... eu não ouvi nada, seu prefeito! — gaguejou ela, recolhendo os cacos.
Maria Vaidosa sorriu e piscou para o marido.
— Viu só, Mão Grande? As paredes têm ouvidos… e as empregadas também.
E lá se foi dona Fátima, tremendo de medo — mas com o celular gravando a conversa todinha, prontinha pra viralizar na internet a qualquer momento.
Porque em Água do Boi, o castigo dos corruptos um dia chega.
*Edelvânio Pinheiro é bacharel em Jornalismo pela Católica (UCA), foi editor do jornal Alerta de Teixeira de Freitas e correspondente do A Tarde, de Salvador, na extinta sucursal do extremo sul, e é diretor-geral do site Água Preta News. É também radialista, ex-chefe de jornalismo da Rádio Extremo Sul de Itamaraju e diretor-geral da Rádio Master FM, de Itanhém. Escritor, autor de sete obras, incluindo uma obra infantojuvenil publicada no Brasil e em Portugal pela editora Flamingo, possui licenciatura em Letras Vernáculas pela Universidade do Estado da Bahia (UNEB) e é pós-graduado em Ciências Políticas.
Clique nos títulos abaixo e leia os contos da série publicados até agora:
Quem vota em ladrão, rouba de si mesmo
Maria Vaidosa exigiu do prefeito Mão Grande um camarote na festa, mas não para qualquer um
A obra do prefeito Mão Grande que não acabava nunca
O batuque da bajulação ao prefeito Mão Grande, na cidade de Água do Boi
Festa e bajulação no aniversário de Maria Vaidosa
Maria Vaidosa e o vestido comprado com dinheiro da prefeitura
Mão Grande nomeou Maria Vaidosa secretária de Assistência Social de Água do Boi
Quando o posto de gasolina vira banco os pobres morrem à míngua
Com dinheiro da prefeitura Maria agora tá mais vaidosa
Maria Vaidosa e o livro que quase acabou com seu casamento
O concurso público mais rápido da história de Água do Boi
Maria Vaidosa reclama que o dinheiro da prefeitura não está sendo dividido direito
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