ENTENDA a série "Contos de Domingo":
Em algum ponto perdido do mapa, e da vergonha também, existe Água do Boi, uma cidade pequena onde os escândalos andam mais rápido que a notícia e a honestidade. Lá governa o prefeito Mão Grande, homem de bolso fundo e mão ligeira, especialista em sumir com dinheiro público como quem tira doce de criança.
Ao lado dele está Maria Vaidosa, a primeira-dama que fala fino com gente rica e com cara fechada com gente pobre. Vive cercada de vestidos caros, perfumes importados e sorrisos calculados, enquanto prega uma moral que só vale para os outros. Juntos, eles formam o casal mais poderoso de Água do Boi, conduzindo a cidade como se fosse um palco, onde o povo sempre é a plateia que paga e nunca a estrela que brilha.
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Edelvânio Pinheiro*
A notícia do concurso público se espalhou pela cidade de Água do Boi com a velocidade de um boato no grupo de WhatsApp da prefeitura: havia uma vaga. Uma vaga cobiçada, cintilante, para Assessor Especial, com salário que fazia os olhos de médicos cirurgiões marejarem. A exigência era ser "dinâmico, proativo e de total confiança do gestor".
O edital, publicado numa sexta-feira à noite no mural digital da prefeitura (um site que só carregava no Internet Explorer), tinha uma validade curta, de apenas 48 horas.
— Agilidade nos novos tempos, justificou Mão Grande em um raro pronunciamento escrito, que mais parecia um bilhete rabiscado num guardanapo.
No sábado de manhã, a fila em frente ao paço municipal era única. Um único candidato. Um jovem de terno engraxado e sorriso colado no rosto, que carregava uma pasta abarrotada de diplomas, certificados e um laudo médico atestando "proatividade crônica". Era o doutor Esperançoso de Araújo Lima, recém-chegado da capital, cheio de ideias.
Enquanto Esperançoso suava sob o sol, ensaiando mentalmente seu discurso de posse, a porta dos fundos da prefeitura, aquela que dava direto para o estacionamento reservado, estava aberta. Por ela, entrou Lourival, primo de Maria Vaidosa e afilhado de batismo de Mão Grande. Lourival, que até a semana passada era conhecido por ser o melhor no campeonato municipal de sinuca, trajava um short e uma camisa do Vasco da Gama. Não carregava pasta, mas uma chave de fenda, pois disseram que ele tinha que "ajustar umas coisas no gabinete".
Na segunda-feira, o resultado saiu no mesmo mural digital. A lista de aprovados tinha um único nome: Lourival Guimarães da Silva. Ele havia conseguido nota máxima em “Dinamicidade e Confiança".
O doutor Esperançoso, com o sorriso agora descascado, foi ao gabinete do prefeito exigir explicações.
— Mas como?! Eu tenho três pós-graduações! Falo quatro idiomas!"
Mão Grande, enquanto abria um pacote de biscoito, deu de ombros e explicou, com a paciência de quem ensina o óbvio:
— Meu jovem, Lourival tem a melhor qualificação de todas: ele é de casa. E ele já provou sua eficiência. Em menos de uma hora, conseguiu destravar a fechadura da gaveta principal do gabinete, um problema que nenhum assessor anterior resolveu. Isso é que é proatividade!
Do lado de fora, Maria Vaidosa, agora com um novo penteado pago com a verba da secretaria, consolou o jovem doutor:
— Não fique assim, moço. Aqui em Água do Boi, concurso público é igual as obras de Mão Grande: só acontece uma vez, e nunca acaba como o povo imagina.
E assim, Lourival assumiu seu cargo de Assessor Especial, cuja primeira e única atribuição, até o momento, foi aprender a fazer café coado na hora para o "chefe". Maria vaidosa não suportava mais vereadores todo dia no gabinete servindo café para o prefeito pra conseguir mais empregos para seus familiares.
*Edelvânio Pinheiro é bacharel em Jornalismo pela Católica (UCA), foi editor do jornal Alerta de Teixeira de Freitas e correspondente do A Tarde, de Salvador, na extinta sucursal do extremo sul, e é diretor-geral do site Água Preta News. É também radialista, ex-chefe de jornalismo da Rádio Extremo Sul de Itamaraju e diretor-geral da Rádio Master FM, de Itanhém. Escritor, autor de sete obras, incluindo uma obra infantojuvenil publicada no Brasil e em Portugal pela editora Flamingo, possui licenciatura em Letras Vernáculas pela Universidade do Estado da Bahia (UNEB) e é pós-graduado em Ciências Políticas.
Clique nos títulos abaixo e leia os contos da série publicados até agora:
Quem vota em ladrão, rouba de si mesmo
Maria Vaidosa exigiu do prefeito Mão Grande um camarote na festa, mas não para qualquer um
A obra do prefeito Mão Grande que não acabava nunca
O batuque da bajulação ao prefeito Mão Grande, na cidade de Água do Boi
Festa e bajulação no aniversário de Maria Vaidosa
Maria Vaidosa e o vestido comprado com dinheiro da prefeitura
Mão Grande nomeou Maria Vaidosa secretária de Assistência Social de Água do Boi
Quando o posto de gasolina vira banco os pobres morrem à míngua
Com dinheiro da prefeitura Maria agora tá mais vaidosa
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