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Terça-feira, 16 de Dezembro 2025

CONTOS DE DOMINGO

Quem vota em ladrão, rouba de si mesmo — Conto de Edelvânio Pinheiro sobre 'Mão Grande' e 'Maria Vaidosa'

Escrevi esse conto com uma linguagem acessível, porque quis falar com o povo. É a ele que dedico esse texto, na esperança de que a literatura possa servir como espelho, alerta e caminho.

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Por Água Preta News
Quem vota em ladrão, rouba de si mesmo — Conto de Edelvânio Pinheiro sobre 'Mão Grande' e 'Maria Vaidosa'
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Sou, por natureza, um cronista, desses que gostam de ouvir o povo, observar a vida cotidiana, e transformar o banal em reflexão. Poucas vezes me aventurei no caminho dos contos, embora tenha um grande apreço por esse gênero literário. Ao que recordo, ao longo da minha vida, escrevi apenas cerca de dez contos, sendo três deles produzidos no período em que cursei Letras Vernáculas pela Universidade do Estado da Bahia.

Sou leitor admirável de grandes contistas da literatura brasileira. Guardo com muito carinho em meu acervo obras de Machado de Assis, Guimarães Rosa, Clarice Lispector e Rubem Fonseca, autores que me encantam e influenciam minha maneira de observar e narrar o mundo, que me acompanham como referências permanentes na arte de escrever.

Este conto que apresento agora nasceu da inquietação que carrego como cidadão e como contador de histórias. Ambientado na fictícia comunidade de Água do Boi, ele traz à tona uma crítica direta à realidade que muitos brasileiros conhecem bem, que é o abuso do poder, a corrupção política e a negligência com os mais pobres.

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Na história, personagens como Mão Grande e Maria Vaidosa além de serem invenções literárias, são representações simbólicas de líderes que, durante anos, manipularam a boa-fé do povo, explorando suas necessidades e sufocando suas esperanças. Usei elementos simples, como a merenda escolar, o remédio negado e a cirurgia adiada, para mostrar o quanto a irresponsabilidade administrativa custa vidas. Mais do que roubar dinheiro, esses personagens roubam o que há de mais precioso, que é a dignidade e a confiança das pessoas.

Apesar da leveza que a ficção permite, o conto tem um teor moral forte. A frase final, “quem vota em ladrão, rouba a si mesmo”, resume a ideia central da narrativa. Escrevi esse conto com uma linguagem acessível, porque quis falar com o povo. É a ele que dedico esse texto, na esperança de que a literatura possa servir como espelho, alerta e caminho.

Dedico este conto a todos os brasileiros e brasileiras que, mesmo diante da dor, do descaso e das injustiças, seguem acreditando que é possível construir um país mais justo, e que entendem que a mudança começa, muitas vezes, pelo voto.

Como escritor, acredito que temos uma responsabilidade que vai além do papel e da caneta: é preciso dar voz a quem não tem, enxergar onde muitos fingem não ver e transformar o silêncio em palavra. Em tempos de crise social e política, escrever é também um ato de resistência. Que este conto, simples em sua forma, possa provocar reflexões profundas. Boa leitura!

***

Era uma vez uma cidadezinha chamada Água do Boi, onde o povo trabalhava muito e sonhava mais ainda, mas, no fim, sempre acabava sendo enganado.

Não era uma cidade pobre de tudo, nem rica de verdade. Tinha comércio, escola, posto de saúde e gente honesta querendo ver as coisas melhorarem. O problema é que, eleição após eleição, aparecia um novo salvador prometendo resolver tudo, e o povo, com o coração cheio de esperança, acreditava de novo.

Água do Boi era uma terra onde a mentira vestia paletó, e a verdade andava calada. Onde o asfalto era sempre prometido, mas só aparecia em ano de eleição e, mesmo assim, só até a metade da rua. Onde o hospital e postos faltavam médicos, dentistas, equipamentos, cirurgias e remédios. Onde o dinheiro vinha, mas ninguém sabia pra onde ia. Era uma cidade mantida no cabresto, alimentada com migalhas, pra continuar servindo de curral eleitoral.

O povo, esse sim, era batalhador. Trabalhava cedo, pagava imposto, e mesmo sem retorno, continuava acreditando. Porque, no fundo, Água do Boi não era diferente de tantas outras: era um lugar onde a esperança era explorada como moeda, e o voto era tratado como favor.

Naquela cidade, a prefeitura era a maior fonte de emprego, não por mérito ou planejamento, mas por esperteza política. O comércio local até gerava algumas vagas, nas lojas de família e nos mercadinhos de bairro, mas nada que se comparasse ao poder da máquina pública. Quem tinha um contracheque da prefeitura era visto como alguém de “sorte” ou alguém de “acordo”.

E foi assim que, por muitos anos, o cargo público virou moeda de troca. Não importava se a vaga era necessária, se havia orçamento, ou se a pessoa tinha preparo. O que importava era garantir o voto. Os prefeitos de Água do Boi aprenderam cedo a usar a folha de pagamento como cabo eleitoral. Prometiam emprego a cada aperto de mão, a cada visita no sofá do eleitor, a cada carreata.

Mas não tinha vaga pra todo mundo. A estrutura da prefeitura não comportava tanto cabide. Então, muitos recebiam a promessa, mas nunca o cargo. Ganhavam só a ilusão que durava anos. Quando cobravam, ouviam que tinham que esperar “a hora certa”, ou que “o nome estava na lista”.

E assim se formava o ciclo da enganação. Gente que antes trabalhava por conta, largava tudo pra viver de esperança. O voto deixava de ser livre, virava favor. A política deixava de ser projeto, virava negócio.

Água do Boi, aos poucos, foi sendo dominada por esse governo da dependência, onde o emprego não era um direito, mas uma recompensa, e a prefeitura, em vez de servir ao povo, servia para atender aos interereses políticos de quem havia sido eleito.

Foi nesse cenário viciado que surgiu o prefeito Mão Grande. Homem bom de conversa, sorriso fácil, mas coração de pedra. Um homem que sabia exatamente o que o povo queria ouvir, principalmente os mais pobres, que formavam a maioria dos eleitores. Prometia saúde digna, educação moderna, asfalto novo, emprego pra todo mundo e até praça com Wi-Fi. Mas, por trás da fala mansa, se escondia um calculista frio, que nunca teve intenção de cumprir nada do que dizia.

Mão Grande não governava para o povo. Governava para seus amiguinhos ricos, os mesmos que bancaram suas campanhas eleitorais, os mesmos que encheram seus comícios e encomendaram sua vitória como quem encomenda um investimento. Esses amigos, claro, estavam sempre por perto com contratos embaixo do braço, empresas de fachada, cargos de confiança e o bolso aberto para a partilha.

Seus familiares também não ficavam de fora. Contratos, notas frias, tudo armado pra fazer o dinheiro público girar dentro da família, passando de mão em mão, como se o cofre da prefeitura fosse herança de família.

Para manter o esquema funcionando, o prefeito Mão Grande driblava as leis de licitação como quem joga bola no campinho da esquina. Quase tudo era feito por decreto, sem transparência, sem concorrência, sem fiscalização. Quando precisava justificar uma obra ou compra, entrava em cena sua especialidade: as notas frias.

Notas frias são documentos falsificados ou forjados para simular compras ou serviços que nunca aconteceram; ou que aconteceram em parte, mas com o valor absurdamente inflado. Com elas, Mão Grande pagava por medicamentos que nunca chegaram, por reformas que nunca foram feitas, por serviços fantasmas, tudo com aparência de legalidade. No papel, tudo certinho. Na prática, um roubo silencioso, disfarçado de gestão.

E enquanto os papéis mentiam, o dinheiro sumia. Sumia pelos ralos da corrupção, entrava em contas suspeitas, virava luxo para poucos e miséria para muitos.

Sua mulher, a primeira-dama, Maria Vaidosa, fazia jus ao nome, era a favorita de tudo que envolvia poder, luxo e dinheiro público. Na cidade, era mais fácil encontrá-la em boutiques caras do que em eventos sociais do município. Aparecia nas redes sociais ostentando bolsas caras, unhas feitas, filtros brilhando e frases de autoajuda, como se fosse uma influenciadora de novela; só que patrocinada pelos cofres da prefeitura.

Chamava o marido carinhosamente de “Mãozinha”, mas quem mandava mesmo em certos bastidores era ela. Maria Vaidosa não queria apenas desfrutar do poder. Ela queria sair rica dali. Rica de verdade. Sabia que aquela gestão podia ser a última oportunidade de mudar de vida e realizar o sonho antigo de viver como “gente fina”, com casa de praia, viagens caras e o nome no topo da sociedade local. Para isso, precisava fazer o que chamava de “pé de meia”, mas na verdade, queria era garantir uma fortuna que sustentasse muitos anos de vida mansa.

Sua ambição não parava nos vestidos nem nas fotos bem produzidas. Começou a beneficiar os próprios familiares, com a mesma ousadia do marido. Mandou reformar com dinheiro da prefeitura um velho imóvel do irmão, que estava praticamente abandonado, e depois alugou o imóvel reformado para o próprio município. Um escândalo silencioso, maquiado por contratos assinados sem licitação e com valores acima do normal.

E claro, Mãozinha, sempre carinhoso, mas também cúmplice, concordava com tudo. Dizia que “o que é da família, fica na família”. Quando Maria Vaidosa queria nomear alguém, o marido assinava sem discutir. Ela apontava o dedo, ele batia o carimbo. Dessa forma, os cargos da prefeitura foram sendo ocupados por gente de confiança... não do povo, mas do clã Mão Grande e Maria Vaidosa.

Com Maria Vaidosa ao lado, a prefeitura virou um negócio de casal. Ele cuidava das obras superfaturadas e das notas frias, ela cuidava dos contratos de aluguel, das indicações, e do luxo nas redes sociais.

E assim, enquanto o povo esperava merenda, medicamento e asfalto, o casal governava com o objetivo de transformar o dinheiro do povo na realização de um sonho particular.

Mas toda farsa um dia cai por terra. O povo de Água do Boi, cansado de ser enganado, começou a abrir os olhos. Não eram apenas reclamações soltas; era a voz da verdade crescendo forte, trazendo à tona tudo que sempre esteve escondido.

Um jovem chamado Zé da Lata - sem cargo, sem dinheiro, mas com coragem e dignidade - decidiu que era hora de mudar. Reuniu o povo, escancarou as mentiras das promessas e denunciou os esquemas. As redes sociais começaram a se encorajar. Aos poucos, a cidade inteira despertou para o que realmente estava acontecendo.

Mão Grande e Maria Vaidosa, que sempre acreditaram que o povo era apenas voto e silêncio, viram seus planos desmoronarem. Mão Grande, outrora bajulado, cercado de luxo e falsos elogios, passou a vagar pelas ruas como um homem derrotado. Afundou-se na bebida, tentando afogar o remorso que o visitava todas as noites. De líder a escárnio, sua imagem virou exemplo do que acontece com quem troca a confiança do povo por favores sujos e dinheiro fácil. Agora, era só mais um rosto perdido, envelhecido antes do tempo, tentando esquecer a cidade que ele próprio ajudou a destruir.

Maria Vaidosa teve fim parecido. Abandonada pelos mesmos que antes a bajulavam, viu a boutique dar lugar ao fiado, os sorrisos falsos virarem desprezo e as redes sociais se calarem diante de sua falência moral. Perdeu o “pé de meia”, a “mala de dinheiro” e também os amigos. Isolada, ela que vivia reclamando da bebida do marido, passou a viver reclusa numa casa simples e alugada no bairro onde jurava nunca morar. Quem antes sonhava com mansões, roupas caras e regalias, agora chorava em silêncio a ruína dos seus próprios passos.

E assim, Água do Boi aprendeu, do jeito mais duro, que votar em ladrão é roubar a si mesmo. Porque o ladrão que tira do bolso do pobre, além do dinheiro leva o remédio que alivia a dor, a cirurgia que salva uma vida, a merenda que alimenta a criança, o transporte escolar que leva o aluno até a sala de aula. Leva também o futuro, a esperança, a dignidade do povo.

 

Edelvânio Pinheiro é jornalista e escritor.

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O Água Preta News começou a operar, oficialmente, em 30 de agosto de 2016. A data – dia e mês – é a mesma do aniversário do poeta e jornalista Almir Zarfeg, cuja obra poética de estreia, “Água Preta”, deu nome ao site de notícias e entretenimento.

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