ENTENDA a série "Contos de Domingo":
Em algum ponto perdido do mapa, e da vergonha também, existe Água do Boi, uma cidade pequena onde os escândalos andam mais rápido que a notícia e a honestidade. Lá governa o prefeito Mão Grande, homem de bolso fundo e mão ligeira, especialista em sumir com dinheiro público como quem tira doce de criança.
Ao lado dele está Maria Vaidosa, a primeira-dama que fala fino com gente rica e com cara fechada com gente pobre. Vive cercada de vestidos caros, perfumes importados e sorrisos calculados, enquanto prega uma moral que só vale para os outros. Juntos, eles formam o casal mais poderoso de Água do Boi, conduzindo a cidade como se fosse um palco, onde o povo sempre é a plateia que paga e nunca a estrela que brilha.
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Edelvânio Pinheiro*
Maria Vaidosa abriu os olhos cedo naquele dia especial. Olhou no espelho de luxo no canto do quarto, passou a mão no rosto e pensou: “Hoje é meu dia, o dia em que todas vão se curvar a mim.” Não era apenas aniversário. Era, para ela, mais uma chance de reafirmar sua posição de mulher do prefeito, a rainha da cidade.
Ainda de camisola, o celular começou a vibrar. Eram notificações sem fim:
“Parabéns, miga linda!”, “Deus te abençoe, exemplo de mulher!”, “Você é a rainha dos aguaboienses.” Mensagens cheias de glitter digital e frases de efeito. Vaidosa lia sorrindo, mas no fundo sabia que muitas daquelas mesmas mãos que digitavam mensagens passavam os dias apontando defeitos dela nos corredores da prefeitura e das secretarias.
Às nove da manhã, já estava na primeira festa. A secretária mais ligada a ela montou um cenário extravagante com balões brancos e dourados, buffet de doces finos e música de teclado eletrônico.
— Você merece tudo isso, minha amiga queida! — dizia a secretária, quase chorando de emoção.
— Ah, minha amada, obrigada! — respondia Maria, com o sorriso ensaiado.
Enquanto isso, dois servidores concursados cochichava no canto:
— Lá no posto de saúde do meu bairro tá faltando gaze, pacientes do CAPS estão quase correndo pelados na rua, mas aqui tem até cascata de chocolate...
Às onze, sem tempo de respirar, Vaidosa seguiu para a segunda comemoração. A anfitriã, esposa de um gerente de uma empresa importante da cidade, amigo de cachaça do prefeito, resolveu caprichar na festa com o tema “Realeza”. Havia um trono improvisado, tapete vermelho no chão e até uma coroa de plástico reluzente.
— Hoje você é a nossa rainha! — gritou a anfitriã, entregando a coroa à primrira-dama.
Maria, sentou-se no trono e posou para dezenas de fotos. O celular das convidadas parecia uma metralhadora de cliques. Mas no meio da algazarra, uma puxou Vaidosa de lado:
— Maria, aproveitando que a gente tá aqui, você podia falar com o prefeito sobre aquela licitação, né?
Maria fingiu que não ouvir. Voltou ao centro da sala e levantou o copo de espumante como quem levanta caneca de cerveja em festa de sanfona, onde o prefeito puxa o fole e o vereador se arrisca no triângulo.
Depois do almoço, veio o terceiro compromisso. Um grupo de amigas, cujos maridos tinham carros locados na prefeitura e pequenos negócios de eventos na cidade, organizou um banquete na casa de uma delas. Entre pratos de churrasco, água de coco gelada e sucos naturais, Maria recebia discursos ensaiados:
— Você é exemplo de força, Vaidosa...
— Se não fosse você, Mão Grande não seria o que é hoje!
— Você tem o coração mais generoso do mundo!
Às quatro da tarde, já com as pernas pesadas e o rosto doendo de tanto sorrir, Maria foi a denominada "Festa das Migas". A mesa parecia de casamento, com flores naturais, bolos de todos os sabores, docinhos alinhados em fileiras perfeitas formando o nome Vaidosa. Uma das organizadoras cochichou, acreditando que ninguém ouviria:
— A festa daquela idiota foi bonita, mas a nossa tá bem melhor. Quero ver se Vaidosa vai postar no Instagram mais fotos da nossa festa ou da festa dela.
Maria ouvia, ria e fingia não entender. Mas o coração começava a pesar. Já não sabia se celebrava a vida ou se participava de um campeonato de bajulação.
No início da noite, mais uma comemoração. Desta vez organizada pela diretora de um colégio municipal, que mal sabia coordenar sua escola, mas tinha doutorado em bajular quem estava no poder. O palco foi montado, e Maria, cansada, teve de ouvir uma apresentação musical em sua homenagem, onde até o ‘Parabéns pra você’ ganhou arranjo de axé.
— Maria é o coração desta cidade! — disse uma professora, toda empetecada para a comemoração.
Um menino do coral escolar murmurou baixinho:
— Se ela é o coração, é por isso que a cidade vive com falta de ar.
Já em casa, quando o relógio marcou quase meia-noite, Maria Vaidosa entrou esgotada. Arrancou os sapatos, largou a coroa de plástico em cima da mesa e se jogou no sofá da área.
Mão Grande, estava na rede, cercado de latinhas de cerveja espalhadas pelo chão. Olhou para ela sem levantar muito a cabeça:
— E aí, como foi o dia?
Maria respirou fundo, com os olhos marejados de cansaço.
— Foi um circo, Mãozinha. Essas amigas são todas falsas. Passaram o dia me bajulando, mas no fundo só querem cargo, dinheiro e aparecer do meu lado.
O prefeito soltou uma gargalhada seca.
— Ora, Maria... e você achou que estavam comemorando seu aniversário? Tudo isso foi uma missa rezada pro poder. Você só é a vela no bolo, nada mais.
Ela se calou. Pela primeira vez, Vaidosa, que sempre gostou de se sentir a dominadora, se viu como um objeto do espetáculo. E compreendeu, entre o amargo e o doce do dia, que até parabéns, em Água do Boi, era moeda de troca.
*Edelvânio Pinheiro é bacharel em Jornalismo pela Católica (UCA), foi editor do jornal Alerta de Teixeira de Freitas e correspondente do A Tarde, de Salvador, na extinta sucursal do extremo sul, e é diretor-geral do site Água Preta News. É também radialista, ex-chefe de jornalismo da Rádio Extremo Sul de Itamaraju e diretor-geral da Rádio Master FM, de Itanhém. Escritor, autor de sete obras, incluindo uma obra infantojuvenil publicada no Brasil e em Portugal pela editora Flamingo, possui licenciatura em Letras Vernáculas pela Universidade do Estado da Bahia (UNEB) e é pós-graduado em Ciências Políticas.
Clique nos títulos abaixo e leia os contos da série publicados até agora:
Quem vota em ladrão, rouba de si mesmo
Maria Vaidosa exigiu do prefeito Mão Grande um camarote na festa, mas não para qualquer um
A obra do prefeito Mão Grande que não acabava nunca
O batuque da bajulação ao prefeito Mão Grande, na cidade de Água do Boi