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Terça-feira, 14 de Julho 2026
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700 km de fé

Nem toda viagem termina quando se chega ao destino. Algumas terminam quando o coração entende por que precisou caminhar.

700 km de fé
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*Crônica de Edelvânio Pinheiro

Durante 17 dias, homens montados em seus animais cruzaram estradas de terra, cidades e montanhas, enfrentando frio, poeira, sol e cansaço. Quem olhava de fora via apenas uma comitiva, mas quem caminhava por dentro sabia que aquela não era uma viagem qualquer. Era uma conversa silenciosa com Deus.

Setecentos quilômetros parecem muito quando vistos no mapa. Mas tornam-se pequenos diante da distância que existe entre o orgulho e a humildade, entre o medo e a confiança, entre o homem que parte e o homem que retorna.

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Cada amanhecer da viagem parecia ensinar uma nova lição. O café compartilhado antes do nascer do sol. O cuidado com os animais, que também carregavam parte daquela missão. O companheirismo que diminuía o ritmo para esperar quem estava mais cansado. A mão estendida sem que ninguém precisasse pedir.

É curioso como a estrada vai retirando tudo aquilo de que não precisamos. Ela tira a pressa, o conforto, o excesso. E, quando percebemos, sobra apenas aquilo que realmente importa. A nossa fé.

Há quem pense que a romaria de Bom Jesus da Lapa termina quando o romeiro chega ao santuário. Na verdade, é ali que ela começa.

Quando aqueles cavaleiros entraram na praça, trazendo consigo a bandeira do município de Itanhém, que representava o estandarte da Comitiva dos Muladeiros de Água Preta e 700 quilômetros gravados na memória, não eram apenas homens chegando ao fim de uma jornada. Eram corações devolvendo a Deus cada passo que receberam Dele.

Confesso que uma das cenas que mais me tocou foi ouvir, diante do santuário, a oração conduzida pelo meu colega radialista Waguinho Borges. O vídeo com a oração está logo aqui embaixo. Suas palavras não pareciam um discurso preparado. Eram palavras de quem compreende que ninguém percorre uma estrada tão longa apenas com a força das próprias pernas ou a resistência do próprio corpo.

Naquele instante, enquanto agradecia ao padre e, principalmente, a Deus, parecia que cada romeiro rezava junto, mesmo em silêncio. Havia uma emoção que não precisava ser explicada. Talvez seja exatamente isso que explique por que essa romaria atravessa gerações.

Vivemos em um tempo em que as pessoas querem tudo depressa. A tecnologia encurtou distâncias, mas alongou vazios. Hoje se chega mais rápido a qualquer lugar, mas nem sempre se encontra paz.

Os muladeiros fazem o caminho contrário. Eles desaceleram para encontrar aquilo que a velocidade nunca entrega. Por isso, talvez os 700 quilômetros percorridos até Bom Jesus da Lapa sejam, na verdade, muito maiores.

Porque a estrada mais longa nunca foi a de Água Preta até a Lapa. A estrada mais difícil sempre foi aquela que liga a cabeça ao coração. "E essa só a fé consegue percorrer", diria Waguinho Borges, pelo que conheço dele.

Depois da longa caminhada, enquanto os cavaleiros retornam para casa de ônibus e os animais seguem em caminhões, a viagem parece chegar ao fim. Mas não chega. Porque quem volta de uma romaria nunca regressa exatamente igual. Sempre deixa alguma coisa pelo caminho e sempre traz algo que não existia antes da partida.

Os cascos deixam de ecoar na estrada. A poeira baixa. As mochilas são desfeitas. Mas existe uma bagagem que ninguém consegue descarregar. Ela continua viajando dentro dos 17 que caminharam. Talvez seja por isso que Deus nunca tenha pedido pressa aos homens. Apenas que nunca deixassem de caminhar.

Porque, na verdade, os 700 quilômetros nunca foram sobre chegar à Lapa. Sempre foram sobre permitir que Deus encontrasse cada romeiro no caminho carregado de fé.

*Edelvânio Pinheiro é escritor e jornalista.

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