Neste sábado (19), o microfone da Rádio Master FM se despediu do ar, mas o coração ficou batendo mais forte. Ao encerrar o programa Tribuna do Povo, escolhi Reconvexo, de Caetano Veloso, como uma espécie de oferenda sonora, dessas que não se entregam apenas aos orixás, mas também aos filhos. A música, nesse dia, era para Eben Howard, meu pequeno, meu dançante menino de onze meses, que completará um ano de vida no próximo 23 de julho.
A homenagem veio como um sopro, mas também como um manifesto. Não foi por acaso que escolhi Caetano. Desde os primeiros meses de vida — e mesmo quando ainda vivia no útero —, eu e a mãe de Eben lhe oferecemos o que há de mais puro na música brasileira. É um gesto intuitivo, e também político. Enquanto muitos entregam às crianças apenas o que é fácil ou descartável, nós preferimos o sabor do que é eterno, plural e profundo.
Reconvexo é mais do que uma canção, é um território. Nela, Caetano canta com orgulho uma Bahia que se recusa a caber em estereótipos. É uma resposta, uma celebração, um levante. É a voz que nasce no Recôncavo, mas que se expande “como areia do Saara que chega a Roma”. É cultura que resiste, que dança, que se reinventa.
E Eben, “di Joana ou di Kerry”, do alto de sua inocência e encanto, já compreende isso de um jeito muito próprio. Em um vídeo recente, que guardamos com carinho, ele canta e dança essa música — ao seu modo de bebê, é claro —, mas com a alma inteira. Sua voz sem palavras traduz uma alegria que é anterior à fala e, talvez por isso, mais verdadeira. Ele já reconhece o nome de Caetano. Já escutou Gil, Gal, Bethânia, e outros mestres do nosso chão.
Curiosamente, fiz há alguns anos um trabalho no curso de Letras Vernáculas na Universidade do Estado da Bahia (UNEB), analisando essa mesma música. Discorri sobre o neologismo “reconvexo”, que transcende o “Recôncavo”, e sobre como Caetano constrói uma identidade múltipla, feita de vozes negras, de mães-de-santo, de cultura pop, de resistência e pertencimento. Ele responde à ignorância de quem desdenhou da Bahia como, lamentavelmente, fez o colega jornalista Paulo Francis, e ergue um panteão de símbolos que revelam um Brasil muito maior do que suas fronteiras.
E hoje, enquanto vejo Eben crescendo nesse ambiente de sons e significados, percebo o valor desse gesto. Não é apenas uma homenagem a ele. É um presente para o futuro. Uma maneira de dizer: “Meu filho, essa é a tua terra. Essa é tua gente. Essa é tua música. Que ninguém te diga o contrário.”
E não há melhor presente para um filho do que mostrar-lhe desde cedo onde está sua raiz.