*Crônica de Edelvânio Pinheiro
Eu ainda muito jovem convivi na cidade de Itanhém com Reinaldo Vieira em alguns movimentos do Partido dos Trabalhadores. A casa da minha mãe, Maria Pinheiro, ficava ao lado do sindicato que ele fundou, ali na Rua Belo Horizonte, e foi naquele espaço que aprendi, sem perceber, o verdadeiro significado da palavra compromisso.
Reinaldo não era um homem de discursos inflamados o tempo todo, embora soubesse falar com firmeza quando necessário. Era, antes de tudo, um homem tranquilo, educado, de fala mansa e olhar atento. Tinha uma visão política definida, dessas que não se dobram ao vento, sempre guiada pela defesa dos mais pobres, princípio que ele nunca abandonou.
Nascido em Itambacuri, em Minas Gerais, trouxe consigo, quando chegou a Itanhém em 1966, mais do que seus pertences. Trouxe um jeito de ser que misturava simplicidade com coragem. E foi aqui que ele fincou raízes, não apenas na terra, mas na vida das pessoas.
Sempre atuante na política local e regional, Reinaldo nunca se colocou à margem das decisões que afetavam o povo. Participou ativamente dos debates, da organização popular e também colocou seu nome à disposição, chegando a ser candidato a vereador e a deputado estadual. Não por vaidade, mas por acreditar que a política poderia e deveria ser um instrumento de transformação social.
Lembro bem das minhas três filhas, ainda pequenas, ocupando aquele espaço coberto nos fundos do sindicato. Brincavam, corriam, riam alto, como só crianças sabem fazer. E ali, no meio de reuniões, conversas sérias e decisões importantes, estava Reinaldo sempre paciente. Nunca um gesto de incômodo, nunca uma palavra atravessada. Pelo contrário, muitas vezes um sorriso discreto, um olhar carinhoso, como quem entendia que a vida também se constrói nesses pequenos barulhos de crianças.
Hoje, já quase perto da terceira idade, olhando para trás, percebo que aquele homem que transitava com naturalidade entre a luta política e a delicadeza do cotidiano era, na verdade, alguém raro. Fundar um sindicato, ajudar a organizar trabalhadores, participar da construção de um partido político, tudo isso exige coragem. Mas manter a serenidade, o respeito e a humanidade no meio de tudo isso… isso é ainda mais difícil.
Reinaldo era assim. Firme sem ser duro, determinado sem perder a ternura.
Sua luta nunca foi por cargos ou reconhecimento. Era por justiça. Pelos que tinham pouco ou quase nada. Pelos que, muitas vezes, nem sabiam que tinham direitos. Ele acreditava, e mais do que isso, vivia a ideia de que um mundo melhor se constrói com organização, solidariedade e persistência.
A sua ausência, que confesso ter me causado um grande sentimento na tarde desta quarta-feira, agora deixa um silêncio diferente. Além do silêncio da partida, deixa aquele silêncio que faz a gente lembrar das vozes que realmente importavam. E a voz de Reinaldo Vieira, mesmo calma, era uma dessas que permanecem.
Ficam as memórias. Ficam os ensinamentos. Fica o exemplo. E fica também a gratidão por ter convivido, ainda jovem, com um homem que, sem alarde, ajudou a transformar a realidade de tanta gente e, de alguma forma, também a minha.
*Edelvânio Pinheiro é escritor, autor de sete livros, e bacharel em jornalismo e licenciado em Letras Vernáculas.
Fonte/Créditos: Reinaldo Vieira discursa na Casa da Cultura em Itanhém. Foto: Edelvácio Pinheiro.
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