Crônica de Edelvânio Pinheiro*
Era noite de terça-feira na BA-290. Dessas noites que não batem na porta, que entram na vida da gente como um vento que não se vê chegar.
Dentro do Honda HR-V, uma família inteira. Inteira no sentido mais pleno, mais bonito, mais frágil da palavra.
Ao volante, Paulo Roberto, o Paulinho. Irmão de Raniere, ex-goleiro da Seleção Brasileira Sub-17. Ao seu lado, Emanuele, seu amor. No banco de trás, Sarah, nove anos, e João Pedro, sete anos, os meninos que não param quietos porque o mundo ainda é grande demais para ser visto parado.
Voltavam para Itanhém. A cidade onde a vizinhança sabia o cheiro do café que Emanuele passava de manhã. Onde Sarah tinha um lugar na calçada para pular amarelinha. Onde João Pedro sabia de cor o caminho da padaria.
A estrada, entre Teixeira de Freitas e Medeiros Neto, corria escura e mansa. Até que, do outro lado da pista, uma Toyota Hilux surgiu. Não como veículo, mas como um erro que ainda não sabia o próprio nome.
Dentro dela, Ozanan Abrantes Couy, 69 anos. E, segundo a imprensa local, uma ultrapassagem proibida. Um gesto breve. Rápido como um piscar de olhos. Pesado como um adeus que ninguém pediu.
Depois, o barulho.
Depois, o silêncio. Aquele silêncio que só os acidentes conhecem e sabem explicar com precisão.
Emanuele não resistiu. Sarah também não.
João Pedro, o pequeno de sete anos, ainda chegou ao hospital de Medeiros Neto, mas não resitiu.
Três despedidas. Uma atrás da outra. Como se o mundo tivesse virado de cabeça para baixo e esquecido de avisar.
Paulinho sobreviveu.
E essa é a parte mais difícil de escrever. Porque sobreviver, às vezes, é o verbo mais cruel que existe. Porque agora Itanhém continua sendo a cidade dele. As mesmas ruas. As mesmas calçadas. O mesmo cheiro de café de manhã. Só que Emanuele não mora mais ali. Sarah não pula mais amarelinha. E João Pedro não vai mais à padaria.
No hospital de Teixeira de Freitas, Paulo Roberto segue internado. Seu corpo tenta se recuperar. Mas há feridas que não aparecem em exames. Há dores que não têm remédio que cura.
Do outro lado dessa mesma noite, a Hilux também guardava suas verdades. A imprensa encontrou vasilhames de cerveja. A Polícia Militar anotou em seu relatório que o condutor apresentava fala desconexa, desorientação, sinais de alteração da capacidade psicomotora. No hospital de Medeiros Neto, ele se recusou a fazer o teste de alcoolemia.
Nenhuma investigação, por mais minuciosa que seja, alcança o tamanho exato da perda da família que Paulinho construiu. Nenhum laudo técnico mede o que é acordar e lembrar, no mesmo segundo, que eles não estão mais ali.
Porque acidentes não terminam no impacto. Eles continuam depois. No silêncio que substitui a rotina. Na cadeira vazia à mesa. No brinquedo das crianças jogado no canto da parede. Ah! Os acidentes também continuam na vida de quem fica, principalmete quando ficar exige uma força que ninguém nunca pediu para ter.
E, assim, naquela noite a BA-290 deixou de ser apenas uma estrada.
Edelvânio Pinheiro* é escritor, autor de sete obras, e jornalista.
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