Uma bomba acabou virando motivo de muita discussão nas redes sociais na cidade de Itanhém esta semana. Calma! Não se trata daquele artefato que explode, foi somente uma bomba d'água, que faz a água chegar às torneiras das casas dos moradores de Vila São José, que desde o dia 26 de janeiro parou de funcionar.
Durante a reunião da Câmara da última segunda-feira (20), o vereador Dias da Academia, representante daquela localidade, após se cansar de bater à porta do gabinete do prefeito Mildson Medeiros, levou ao plenário a reclamação daquela comunidade, que já estava impaciente, e com muita razão, afinal, dois meses sem água na torneira nem santo de barro aguentaria. Segundo Dias a bomba d’água estava queimada.
O vereador André Correia, bom opositor que é, estrategicamente ou não, propôs a Dias para, juntos, meio a meio, pagarem o conserto da bomba. Dias corretamente não aceitou a ideia do colega. Imaginem se os 11 vereadores se habituarem a tirar dinheiro do próprio bolso para resolver problemas em suas comunidades, que na verdade são de responsabilidades da prefeitura!
(É necessário abrir um parêntese para explicar que a Vila são José dispõe de duas formas de captação de água. A antiga, captada de forma rudimentar em uma fazenda próxima e de qualidade não apropriada para o consumo humano, e a que foi instalada pelo ex-prefeito Milton Ferreira Guimarães, o Bentivi, que atendeu uma solicitação do então vereador Audrey Correia, que é atualmente advogado. Na ocasião, aquela gestão construiu uma barragem, cercou a área para proteger a nascente, inclusive plantou árvores para preservar a qualidade da água, refez maior parte da antiga tubulação e instalou uma nova bomba.)
A verdade é que a história da falta d’água de Vila São José cruzou o Atlântico e foi parar lá na terra do Tio San. E foi dos Estados Unidos que veio o dinheiro para comprar uma bomba nova, graças ao pedido do missionário Marcos e a solidariedade dos itanheenses Rogerão e Nego Som, que moram lá há duas décadas.
Aí entra novamente as redes sociais. O missionário, entusiasmado por estar fazendo o que ele bem sabe fazer, que é ajudar as pessoas, abraçou a bomba novinha em folha e anunciou que, definitivamente, a falta d’água daquele povo estava resolvida. Sempre dinâmico, o missionário decidiu até o futuro da bomba que estaria queimada. Ela seria consertada para, numa eventualidade, ser utilizada novamente caso a bomba nova falhasse algum dia. Desta forma, a comunidade de Vila São José estaria segura de que nunca mais passaria por uma situação vexatória como a que passou, tão simples de ser resolvida pelo poder público.
Quando tudo parecia ter sido solucionado, surge o vereador Gutemberg (assim mesmo a grafia do nome dele, com emi, para não enganá-lo com o pai da imprensa). Ele é eletricista e se deslocou à vila e, com muita facilidade, descobriu que a bomba não havia queimado coisa nenhuma. Era apenas falta de manutenção em fios e dispositivos elétricos que fazem a bomba funcionar. Gutemberg gravou um vídeo e postou nas redes sociais para mostrar que a água voltou a cair nas torneiras dos moradores. Em conversa com ele, fui informado de que serão necessários substituir fiação e equipamentos menores para que a água não pare de cair nas casas dos moradores daquele lugarejo.
E olha que, para resolver o problema, o vereador não precisou nem da sagacidade de Sherlock Holmes, se bem que, não me recordo de que o infalível detetive, um dos mais atraentes personagens dos romances policiais em todo o mundo, tinha qualquer experiência em eletricidade como tem o vereador Gutemberg, carinhosamente chamado de Guê.
Enquanto a épica história da bomba d’água de Vila São José continua sendo narrada nas redes sociais, os humildes moradores daquela comunidade pede apenas que a falta de planejamento e de responsabilidade com a gestão pública, não provoque mais um momento tão atabalhoado como este, que acaba ferindo a dignidade das pessoas.
Quando o ato de planejar é um método extirpado de uma organização pública (e privada também), cria-se terreno fértil para a incompetência e a irresponsabilidade. Mas, quem sabe um dia os eleitores de Vila São José e de todo o município aprendam, através do voto, a identificar bombas e desarmá-las antes que explodam.
Fonte/Créditos: Crônica de Edelvânio Pinheiro