Tem gente que, quando está por baixo, se mostra humilde, bondosa, cheia de fé. Fala mansinho, abraça todo mundo, diz que é de oração, só falta prometer milagres. Faz questão de parecer boazinha pra ganhar a confiança dos outros. Promete mundos e fundos, participa de campanhas de solidariedade, chora, agradece a Deus e se apresenta como uma espécie de esperança para o mundo.
Mas quando o poder chega, quando ganha um cargo, um título, ou simplesmente o direito de mandar, a verdade aparece. A máscara cai. A humildade vai embora, a bondade se transforma em arrogância, e o respeito pelos outros desaparece.
A pessoa passa a tratar mal quem um dia lhe estendeu a mão. Vira as costas para os amigos. Se junta com gente falsa, oportunista e mentirosa. Começa a humilhar os pequenos, pisar nos humildes, ignorar os que mais precisam de atenção. E, o mais triste, é que até de Deus se afasta. Abandona a igreja, esquece a fé, troca o joelho dobrado pela vaidade erguida. O que era luz vira sombra. Porque, no fundo, o poder não muda ninguém, ele apenas revela quem a pessoa sempre foi.
Ao escrever esta reflexão para o Tribuna do Povo, programa que apresento todo sábado, às 9h, da Rádio Master FM, em Itanhém, lembrei da magnífica obra “A Metamorfose”, de Franz Kafka. Nela, o personagem Gregor Samsa acorda transformado em um inseto monstruoso. Sua forma física muda, e, com isso, ele começa a ser rejeitado por todos ao seu redor, inclusive por sua própria família. Mas aqui, no mundo real, vivemos outro tipo de metamorfose, não a do corpo, mas a do caráter. Ao contrário de Gregor, que foi deformado por fora e excluído, há quem deforme-se por dentro ao alcançar poder, e ainda assim seja aplaudido pela sociedade.
Kafka nos mostra uma desumanização causada pela aparência. Já na vida real, o que se desumaniza é a alma, e não é por fora que a podridão aparece, mas nos gestos, nas palavras, no desprezo pelos pequenos.
E é assim que muitos sobem: não para ajudar, mas para se beneficiar, para exaltar familiares, para aparecer nas redes sociais. Usam os outros como escada e, quando chegam ao topo, empurram todos lá de cima. Mas Deus vê tudo. E o tempo é implacável. Quem sobe pisando, uma hora cai. Quem trai os amigos, será traído. Quem esquece os humildes, será esquecido.
Isso acontece porque o verdadeiro poder não está no cargo, está no caráter. Está em servir, não em mandar. Está em manter a essência, mesmo depois que o mundo te aplaude. O verdadeiro grande é aquele que, mesmo no topo, continua sendo gente. Que não perde a simplicidade e que não esquece daqueles que lutam pela sobrevivência social todos os dias.
Permitam-me, agora, abrir um parêntese à luz da psicanálise freudiana. A arrogância disfarçada de humildade, esse comportamento que tenta parecer virtuoso, é na verdade uma construção de imagem manipuladora. Freud explicaria como um conflito entre o superego (a aparência de moralidade) e o id (o desejo de poder), que é administrado pelo ego. Essa luta interna gera um falso moralismo, típico de quem vive para impressionar, mas não para servir.
Portanto, só nos resta pedir a Deus que nos livre dessas metamorfoses do mal, dessas pessoas cujo ego construiu uma imagem de humildade apenas para esconder a arrogância que carregam desde o berço. Que o Criador do universo nos proteja daqueles que usam a fé como escudo e a bondade como teatro.
E que Ele nos ensine, todos os dias, que a única metamorfose que vale a pena é aquela que nos transforma em gente melhor. A única grandeza que vale é a que se ajoelha para servir quem precisa de ajuda.