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Domingo, 03 de Maio 2026
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Quando um de nós não volta para o plantão

Crônica em homenagem ao sargento Kleriston, que faleceu em casa enquanto se preparava para mais um serviço.

Quando um de nós não volta para o plantão
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*Edelvânio Pinheiro

Não é o silêncio comum da madrugada de serviço. Não é aquele silêncio depois da ocorrência pesada, quando a viatura encosta e a gente respira fundo antes de seguir.

É outro tipo de silêncio. Um silêncio que pesa na alma. Que aperta o peito. Que faz a gente se entreolhar no pátio do quartel sem precisar dizer palavra alguma.

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É o silêncio da guarnição incompleta.

Na noite deste sábado (14), o sargento Kleriston Rodrigues Correia, 47 anos, da 87ª Companhia Independente de Polícia Militar, se preparava para mais uma jornada. Mais uma noite dessas que só quem veste a farda entende, pois enquanto a cidade dorme, o policial desperta.

A farda estava passada, alinhada no cabide. O coturno engraxado brilhava sob a luz da sala. O cinto de guarnição já separado, peça por peça. Coldre ajustado. Porta-carregadores conferidos com o zelo de quem sabe que cada detalhe importa. A identidade funcional no bolso certo. O olhar atento para o relógio, calculando a hora exata de sair para assumir o serviço. Talvez um café rápido. Talvez um último gole d’água. Certamente um beijo na esposa. Um olhar demorado no filho mais novo. E a promessa simples e cotidiana de que, no dia seguinte, estaria de volta.

Sempre foi assim.

Mas, em casa, na Rua Manoel Euclides Medeiros, no Centro de Teixeira de Freitas, algo fugiu ao roteiro de mais um plantão. Enquanto se arrumava, começou a passar mal.

O SAMU e o Corpo de Bombeiros foram acionados com urgência. Chegaram rápido. Mas o sargento, policial militar há 23 anos, homem acostumado a enfrentar o imprevisível das ruas, já não respondia. Seu coração, que tantas vezes acelerou naturalmente durante o trabalho em situações de risco, cessou ali, dentro de casa, antes mesmo de ele cruzar o portão para mais uma noite de serviço.

E nós ficamos.

Ficamos com a notícia atravessada na garganta. Ficamos com a escala aberta, com o nome dele ali, escrito como em tantas outras vezes. Ficamos tentando entender como alguém que, instantes antes, se arrumava para mais uma noite de serviço, não atravessaria mais o portão da companhia.

Mas a rua não para. A cidade continua chamando. As ocorrências seguem surgindo. O giroflex precisa acender. A sirene precisa cortar a noite. A viatura precisa sair do pátio.

Mas o clima muda quando um colega não chega...

A gente sai de casa e não sabe se volta.

Pode ser um confronto inesperado. Um suspeito que reage. Um disparo que vem de onde os olhos não alcançam. Uma emboscada na esquina escura. Um acidente de trânsito em alta velocidade durante um acompanhamento tático. Uma ocorrência doméstica que parece simples e se transforma em tragédia. A profissão policial-militar é, por natureza, uma entrega diária ao risco.

Mas também pode ser um infarto. Um mal súbito. Uma fatalidade silenciosa. Algo que não escolhe farda, patente ou bravura. A morte não avisa se vem na rua ou dentro de casa. Não manda recado e, por vezes, não respeita escala.

O sargento Kleriston não era apenas um número de matrícula.

Era o sorriso no corredor da companhia ao pegar o armamento na sala de meios. Era o conselho firme ao mais novo, apenas ensinando. Era a chamada de atenção na medida certa, quando necessário. Era a ideia criativa para a melhor foto quando solicitado pela Assessoria de Comunicação da unidade. Era presença.

Desde 2003 na trincheira, na batalha diária contra o crime. Vinte e três anos de madrugadas, de sol escaldante em ponto base, de chuva fina encharcando a farda, de ocorrências difíceis e de café amargo em garrafa térmica antiga dividida entre parceiros de guarnição.

E lá estava ele. Sempre de prontidão.

A farda que ele vestiu por mais de duas décadas hoje pesa diferente. Porque por trás da pistola e do rádio comunicador existia um pai. Um marido. Um filho. Um amigo. Existia um homem que também sente o cansaço da dura atividade policial; que sonhava sempre com dias melhores; que fazia planos; que rezava em silêncio para voltar pra casa ao final de cada serviço.

A profissão policial-militar é mais do que enfrentamento. É renúncia. É abdicar de datas especiais, de noites em família. É viver sob a tensão constante de não saber como será a próxima ocorrência. É servir mesmo quando o corpo pede descanso e a mente pede pausa.

E hoje, o dia amanheceu acinzentado. Ainda assim, a memória permanece. E é ela que sustenta os homens que escolheram servir à comunidade.

Homens como o sargento Kleriston deixam exemplo, honra e a lembrança de que é possível trabalhar com dignidade, respeitar a hierarquia, cuidar dos mais novos e manter o coração humano mesmo em meio à dureza da missão.

Claro, e, de algum modo, no banco de trás da viatura, na ronda silenciosa da madrugada, ele seguirá com a tropa. Porque há ausências que doem, mas há presenças que o tempo não apaga.

 

*Edelvânio Pinheiro é policial militar, jornalista e autor de sete livros.

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