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Terça-feira, 13 de Janeiro 2026
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Quando puder, mostre a chuva ao seu filho

A infância não abre espaço para a imprudência, mas também não combina com paranoias como as que ouvimos em todas as esquinas da vida.

Quando puder, mostre a chuva ao seu filho
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*Crônica de Edelvânio Pinheiro

Noite de domingo. Saímos — eu, a mãe e a tia — com Eben no colo, meu menino de nove meses, curioso e atento como quem nasceu para escutar o mundo. De repente, a chuva. Não forte. Uma daquelas chuvas que apenas preparam o céu para o sono. E eu, sem pressa e sem medo, valendo-me do reflexo da luz do poste, mostrei a chuva ao meu filho.

Seus olhos se abriram um pouco mais, a respiração também mudou e, depois, veio o sorriso de contemplação. Estiquei a mão dele para tocar as gotículas da chuva, entendendo, naquele instante, que essa era uma aula — daquelas que não se encontram nos livros, mas que precisam ser dadas desde cedo. Porque o mundo não se aprende só em salas de aula. Aprende-se com o cheiro da terra molhada, com o som dos pingos no janelão da sala, com o friozinho que encosta no rosto, com o brilho do sol filtrado pelas folhas dos coqueiros, com o barulho das cigarras no fim da tarde, com o voo apressado dos pássaros antes da chuva, com o céu que muda de cor a cada hora do dia.

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É necessário, pais e mães, mostrar o mundo aos filhos. Mostrar a eles os cinco elementos da natureza: a água da chuva, o fogo do sol, o ar do vento, a terra onde pisamos e até o éter que preenche o silêncio entre as coisas. São partes da criação, presentes de Deus ou da vida — como preferirem os nobres leitores de minhas crônicas — que não podemos esconder por trás das telas dos celulares, das janelas e portas trancadas dos quartos, nem dos temores modernos.

Sim, é preciso cautela. A infância não abre espaço para a imprudência, mas também não combina com paranoias como as que ouvimos em todas as esquinas da vida. Vento e chuva não são vilões. Não carregam vírus, germes ou monstros invisíveis, como alguns insistem em acreditar. A infância não pode ser condenada a viver em um pote de vidro por medo da poeira do mundo.

Deixar que um bebê sinta o vento no rosto, veja a dança das folhas ou escute o som dos pingos d’água batendo no chão é tão importante quanto alimentar ou vacinar. É isso que fortalece seus sentidos, afina sua percepção, abre seus olhos e coração para o planeta em que vivemos. Criança que conhece o mundo com os próprios pés, mãos e olhos cresce mais conectada à vida real, aquela vida que existe sem medo, longe desse mundo virtual que está apodrecendo as mentes das nossas crianças.

Naquela noite, não fiz mais que o meu dever de pai. Mostrei a chuva ao meu caçula, Eben Howard. E talvez ele não se lembre dessa cena no futuro. Mas seu corpo vai lembrar. Seu coração vai guardar. Porque, quando mostramos a natureza a uma criança, plantamos nela uma memória de pertencimento. Ela começa a entender que faz parte do mundo e não está apartada dele.

Um dia, talvez eu já nem esteja mais por aqui, e meu filho pare em uma calçada de uma cidade qualquer, numa noite de chuva mansa e repita o gesto, com meu neto no colo.

 

*Edelvânio Pinheiro é jornalista e escritor.

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