O domingo, com sua tarde preguiçosa, vestia-se de luz suave quando decidi levar meu filho, Eben Howard, de apenas um ano e um mês, para visitar o rio. Era a segunda vez que seus olhos encontrariam aquela extensão de águas que há séculos correm entre pedras, árvores e homens. A primeira visita aconteceu meses atrás, no verão, quando ele ainda tinha seis meses. Naquela ocasião, o calor convidava ao mergulho, e juntos molhamos o corpo nas águas do Rio Itanhém, rindo como se o tempo fosse apenas um brinquedo esquecido à sombra de uma engazeira, que nessa época descansa sem oferecer frutos.
Agora ele já não era o mesmo bebê de antes, embora continuasse pequeno em tamanho e imenso em descobertas. O rio também não era o mesmo; parecia mais quieto, mais lento, como se soubesse que agora precisava ensinar. Dessa vez não houve banho, apenas contemplação. E contemplar, quando se tem um filho no colo, é mais que observar. É introduzi-lo ao milagre da existência.
Levar um bebê para ambientes como esse não é capricho, nem acaso. É necessidade. É dar-lhe, desde cedo, a chance de tocar a vida em sua forma mais pura, sem as mediações das telas, sem o barulho dos motores, sem a pressa que nos devora diariamente. A natureza é a primeira escola do ser humano. As árvores que balançam ao vento são páginas que se folheiam diante dos olhos atentos; os pássaros que cruzam o céu escrevem no ar lições de liberdade; a areia que se desfaz entre os dedos é a lembrança de que tudo se move, tudo passa, tudo se transforma. Até mesmo as pequenas formigas — que a mãe dele já ensinou que faz “pic”, numa forma carinhosa de alertá-lo sobre a ferroada —, com sua caminhada insistente, oferecem uma aula de disciplina e trabalho coletivo que nenhuma sala fechada e nenhum professor, por mais que utilizasse a mais convincente metodologia, seria capaz de ensinar.
No caminho até o rio, mostrei a Eben bois, vacas e bezerros que pastavam ao lado da estrada de chão batido. Seus olhos brilharam como se reconhecessem velhos amigos. E, de certo modo, reconheciam. Em sua pequena biblioteca já repousam alguns livros sensoriais, esses livrinhos interativos feitos especialmente para bebês, que apresentam texturas ásperas e macias, imagens coloridas e, muitas vezes, sons que imitam o mugido da vaca, o relinchar do cavalo, o cantar do galo. Quando ele viu os bois de verdade, foi como se um mundo imaginário se encontrasse com o real. Aquilo que até então existia apenas em papel, som e cor ganhou carne, cheiro e movimento. Coincidentemente, um boi que estava um pouco distante berrou, e ele ficou extasiado. É nesse instante que a criança percebe que aprender não é decorar, mas vivenciar.
Ao chegarmos, o rio nos recebeu em silêncio. Eben se apoiou em uma pedra, fixou os olhos num carro que atravessava a longa ponte e ali ficou, atento, como se buscasse compreender a relação entre o movimento humano e a eternidade da água. Talvez tenha percebido, na sua linguagem ainda sem palavras, que tudo passa, mas o rio, apesar do movimento constante, permanece.
Enquanto observava meu filho, lembrei-me de quantas vezes procurei aquele mesmo lugar para me isolar. O rio, para mim, sempre foi mais que paisagem; é abrigo. Ali reencontro aquilo que os filósofos antigos já defendiam. Sêneca, que se dedicou a observar as dores humanas, por exemplo, via no recolhimento uma forma de restaurar o equilíbrio da alma, de reordenar os pensamentos diante das lutas diárias. O rio me oferece esse mesmo remédio, a pausa necessária para que a mente, cansada do barulho da cidade e das obrigações da vida, reencontre a simplicidade de um sopro de vento.
E foi nessa quietude que compreendi a beleza do que estava acontecendo. Nosso cotidiano, tantas vezes atropelado por compromissos e imposições da vida, nos rouba o tempo de ensinar, de estar junto, de partilhar. Mas criar um filho exige justamente o gesto de parar para mostrar a ele que a vida é feita também de pequenas pausas. Ensinar que há paz em escutar a água, alegria em observar uma formiga, sabedoria em contemplar o voo dos pássaros, entre tantas outras lições que a natureza oferece.
No fundo, educar é formar seres humanos capazes de reconhecer beleza, mesmo em meio à dureza do mundo. Ao levar Eben ao rio, sinto que lhe ofereço, antes de tudo, um passeio, mas também um alicerce. Quero que ele cresça sabendo que a vida não é só pressa e obrigação; que há espaço para a serenidade, para a ternura, para a contemplação. Quero que seja, no futuro, um bom homem. Acredito que o segredo esteja justamente nesses instantes simples, que se tornam memórias eternas.
A fotografia que ilustra esta crônica, escrita sob o impulso da insônia, mostra apenas meu filho na areia, apoiado na pedra, com os olhos voltados para o carro que atravessava a ponte. Mas a imagem não revela tudo. Ela não mostra, por exemplo, a esperança silenciosa de um pai que deseja que o filho seja melhor do que ele, que carregue menos dores do que aquelas suportadas na infância e na adolescência, e que encontre no mundo um pouco mais de paz do que ele próprio vem encontrando.
Porque, no fim, a paternidade se trata em compreender que somos obrigados a oferecer aos nossos filhos, além do sustento, um futuro se que constrói com a delicadeza de gestos simples, quando o sol se deita sobre a areia do rio, quando o vento toca suavemente a pele de um menino e o silêncio entre pai e filho fala mais que qualquer palavra. É ali, nesse instante quase sagrado, que se aprende a vida; na atenção aos pequenos detalhes, na paciência para esperar que o mundo revele seu nome, na esperança de que cada passo do presente construa alguém capaz de ver a beleza mesmo nas pedras do caminho. E, ao lado do rio, enquanto a água segue seu curso sem pressa, entendemos que educar é plantar raízes profundas, para que o menino cresça sabendo que pode voar mais alto do que qualquer obstáculo que um dia ele venha a encontrar por aí.
Fonte/Créditos: Crônica de Edelvânio Pinheiro