*Crônica de Edelvânio Pinheiro
Estou aqui, na sala de recepção da Rádio Master FM, onde o rádio em cima do armário despeja as melhores músicas da banda Queen como se fossem notas soltas de um céu que Freddie Mercury conquistou. Ouvir Freddie, para mim, é mais do que um prazer, é um ritual de alma, um abraço de vozes que atravessam o tempo e me lembram que a vida, quando cantada, fica mais suave.
E foi quase sob o signo dessa banda que Eben, meu caçulinha de 10 meses, quase se chamou Brian May, em homenagem ao astrofísico de dedos mágicos que fazia as cordas da guitarra gemerem como estrelas cadentes. Mas a vida, essa compositora misteriosa, preferiu outro nome: Eben, em reverência ao neurocirurgião que escreveu sobre o céu e nos fez acreditar que há mais entre o berço e a eternidade do que sonha nossa vã biologia.
Eben Howard di Joana-Kerry. O nome é um poema. Ele carrega, além da madrinha Dra. Kerry Anne, a avó Joana, mulher de cabelos pretos orvalhados de memória, testemunhas silenciosas dos anos que a vida teceu com fios de alegria e cansaço. Revi uma foto dele com ela, feita pela mãe, a poetisa Eliene Lima, nesta semana. Na imagem, Dona Joana está de costas, como quem carrega o mundo e não precisa provar nada. Eben, de frente para a câmera, está deitado no ombro dela, a mãozinha grudada no braço da avó como um broto agarrado ao tronco antigo da árvore. O cabelo dele é 'bonzinho', como o dela, macio e obediente. O dele, um castanho quente; o dela, uma noite estrelada de fios brancos, cada um deles um fio de sabedoria tecido no tempo, como linhas de um livro que eu ainda hei de escrever.
Eben é meu último versinho, a letra que fechou a canção da minha paternidade. Quando ele ri, é como se Freddie Mercury, lá do rádio, soprasse uma risada no meu ouvido. Quando dorme, parece que Brian May afaga os seus sonhos com acordes de uma guitarra celestial. E quando estende a mãozinha para mim, lembro que Eben Alexander escreveu sobre o céu, mas o paraíso, meu filho, é aqui mesmo, nesse pedaço de chão onde seu riso, seu cheiro e seus olhos curiosos me dizem que Deus, quando quer ser poesia, se faz criança.
*Edelvânio Pinheiro é jornalista, escritor e pai de Eben.
Fonte/Créditos: Por Edelvânio Pinheiro
Créditos (Imagem de capa): Foto: Eliene Lima