Crônica de Edelvânio Pinheiro*
Na tarde desta quinta-feira minha filha Amy Brian publicou no Instagram uma dessas mensagens que parecem ser muito mais do que uma simples postagem de conquista. Ao lado da fotografia de sua carteirinha de aluna da Universidade de São Paulo (USP), anunciando o início do mestrado em cirurgia bucomaxilofacial, ela escreveu uma espécie de memória, gratidão e reflexão sobre a própria caminhada. Revisitou a infância, lembrou as mudanças de cidade, os sonhos da família e, principalmente, reconheceu na coragem dos pais uma parte importante da estrada que a trouxe até aqui. Ao terminar de ler, senti que a mensagem dela também era uma história minha e de sua mãe, Sandra Costa. E foi impossível não voltar aos caminhões.
Amy, agora, a doutora Amy, conta que, aos nove anos, eu lhe propus que fosse morar em outra cidade para estudar. Ela era fora da curva, dona de uma inteligência excepcional. Daí a minha proposta.
Ela disse sim e, aos dez anos, sua mãe decidiu que todos nós mudaríamos. E então, nossa humilde casa da Rua Belo Horizonte, em Itanhém, foi colocada em cima de um caminhão. Não tínhamos muitas coisas, como ela mesma escreveu, mas tínhamos muitos sonhos e três matrículas no Colégio da Polícia Militar (CPM), em Teixeira de Freitas, para ela e suas irmãs.
Hoje, tantos anos depois, percebo que aquele caminhão transportava muito mais do que os poucos bens de uma família que mudava de cidade. Levava uma menina e os sonhos que seus pais tinham para o futuro dela.
Há coisas que um pai e uma mãe fazem pelos filhos sem saber exatamente onde aquela decisão vai chegar. Quando eles são pequenos, pensamos que estamos apenas escolhendo uma escola ou uma mudança de endereço. Só muito tempo depois percebemos que algumas decisões tomadas com o coração de pai e de mãe são sementes lançadas em um terreno cujo tamanho ainda não conseguimos enxergar.
Foi assim com Amy.
Eu e Sandra talvez não soubéssemos exatamente onde aquele caminhão nos levaria, mas sabíamos, ou pelo menos sentíamos, que não poderíamos deixar a vida escolher por nós o futuro de nossa filha. Precisávamos fazer escolhas. E escolhemos a educação. Escolhemos a oportunidade. Escolhemos colocar diante dela e de suas irmãs caminhos que poderiam ser difíceis, mas que talvez as levassem muito mais longe do que os nossos próprios olhos conseguiriam alcançar.
O mais bonito é que, naquela época, nós não estávamos tentando fabricar um futuro para Amy Brian especificamente. Estávamos tentando oferecer a ela condições para que pudesse construir o próprio futuro. Essa diferença é enorme. Pais não podem viver pelos filhos, estudar pelos filhos ou escolher todas as estradas por onde eles passarão. Podem, entretanto, abrir portas, apresentar caminhos e, sobretudo, acreditar neles antes mesmo que eles tenham idade suficiente para compreender o tamanho da própria capacidade.
Hoje, quando vejo a carteirinha de aluna da USP em uma publicação no Instagram e sei que Amy está iniciando uma pós-graduação stricto sensu em cirurgia, depois de toda a trajetória de sua formação na Universidade Federal do Espírito Santo e da residência em São Paulo, compreendo que aquela menina não ficou para trás.
Para ela, o caminhão continuou andando. Só que agora já não transporta os humildes móveis de uma casa desmontada. Transporta uma história inteira de estudo, renúncia, coragem e conquistas.
E talvez seja por isso que a imagem do caminhão seja tão forte na mensagem que ela escreveu. Um caminhão não leva apenas aquilo que cabe dentro de uma casa de uma família pobre. Às vezes, ele leva uma família inteira em direção ao futuro. Leva medo, esperança, saudade, incerteza e coragem também. Leva aquilo que somos e aquilo que ainda desejamos ser.
Quando Amy Brian diz que ‘cada novo caminho que abre a remete à nossa casa reduzida em cima do caminhão e que cada conquista faz com que ela sinta que honra a decisão dos pais’, há uma inversão bonita nessa história. Naquele momento, talvez nós estivéssemos conduzindo a filha. Hoje, é a trajetória dela que conduz o orgulho meu, da mãe, de seus irmãos, de seus professores e amigos.
Sempre disse a ela que, deveras, a decisão foi nossa, minha e de sua mãe. Mas o caminho foi dela. Nós a colocamos no caminhão da mudança de cidade, mas foi ela quem escolheu para onde seguir. Nós abrimos uma estrada, mas foi ela quem teve coragem de percorrê-la.
Talvez essa seja uma das maiores felicidades de um pai; perceber que aquilo que um dia fez por amor acabou se transformando em liberdade para o filho construir a própria história.
Sandra e eu não poderíamos escrever a vida da nossa doutora. Não poderíamos estudar em seu lugar, enfrentar as madrugadas, as provas da UFES, a residência em São Paulo, a distância da família, os desafios da pesquisa ou as exigências de uma formação tão longa. Mas poderíamos oferecer aquilo que sempre consideramos essencial; a possibilidade dela escolher o tamanho dos seus próprios sonhos.
E ela escolheu sonhar grande.
Na sua mensagem, Amy escreveu também sobre o que chamou de um ‘desatino, e dos grandes, seguir os caminhos da pesquisa e do ensino em um mundo em que, muitas vezes, uma informação rápida encontrada no Google ou no Instagram parece valer mais do que o conhecimento construído ao longo de anos’. Mas talvez exista justamente aí uma das maiores belezas da escolha de minha filha. Enquanto tantos procuram atalhos, ela decidiu continuar caminhando. Enquanto o mundo atual oferece respostas instantâneas, ela escolheu fazer perguntas. Enquanto muitos querem chegar depressa, ela aceitou o tempo necessário para aprender.
Essa escolha não começou agora, na USP. Talvez tenha começado naquela primeira mudança, trazida no caminhão, para estudar no CPM. Talvez tenha começado no momento em que uma menina de nove anos ouviu do pai a proposta de ir para outra cidade estudar ou, quem sabe, tudo tenha a ver com a excelente educação que recebeu da professora Maria Batista nas séries iniciais.
Nas anotações que fez em sua mensagem sobre O Velho e o Mar, poema musicado de Rubel, Amy encontrou uma pergunta que também me acompanhou depois de ler sua publicação:
— Se você soubesse que voltaria de mãos vazias, ainda iria?
Acho que a própria história dela já respondeu que sim.
Porque quem conhece o propósito da própria caminhada não depende apenas daquilo que encontrará no final. Vai porque acredita. Porque precisa descobrir. Vai porque entende que o caminho também faz parte da conquista.
E foi isso que aquela mudança nos ensinou.
Partimos sem saber tudo o que encontraríamos. Mudamos de cidade sem possuir nenhuma garantia de que o futuro seria exatamente como imaginávamos. Mas fomos. E a doutora Amy Brian continua indo.
Talvez educar um filho seja exatamente isso. Seja colocar sonhos sobre um caminhão e ter coragem de deixá-los partir. É aceitar que os filhos precisam ir, conhecer outras ideias e outras estradas. Precisam se afastar um pouco de nós para descobrir quem são. E nós, pais, precisamos aprender a transformar a saudade em orgulho.
Olhando para a imagem daquela carteirinha da USP, não vejo apenas um documento acadêmico. Vejo uma história inteira. Vejo uma menina de nove anos. Uma mãe determinada chamada Sandra Costa acreditando no futuro da filha. Me vejo tomando decisões que talvez parecessem grandes demais para aquele momento. Vejo uma casa inteira sendo colocada sobre a carroceria de um caminhão. E vejo, principalmente, que os sonhos que colocamos naquela mudança encontraram uma estrada muito maior do que imaginávamos. Claro que, por trás disso tudo, estava o Criador.
E, hoje, Deus está colocando mais uma vez o nosso caminhão na estrada. Então vá. Leve aquilo que couber: sua coragem, sua fé, sua inteligência, sua história e tudo aquilo que ninguém poderá tirar de você. Quando o vento vier, não tenha medo dele.
Você mesma escolheu, para encerrar sua mensagem, os versos de Rubel, nessa sequência que você preferiu:
“Lança o barco contra o mar
Venha o vento que houver
E se puder, voa
Vira a estrada sem saber
E se perder, calma
When you awake inside”
E, olhando para a carteirinha da USP hoje, eu só consigo pensar que aquele velho caminhão ainda está andando. Só que agora ele não carrega mais os móveis de uma casa. Naquela viagem, Lohana e sua mãe seguiam na boleia, ao lado de você, cuidando de uma televisão de tubo de 29 polegadas, enquanto Thathira e seu pai iam na carroceria, segurando aquela enorme antena parabólica para que o vento não levasse a antena. Hoje, o caminhão carrega uma história. A nossa história.
E, para um pai e uma mãe, não existe carga mais preciosa para ser transportada, nem lição maior do que mostrar aos filhos a coragem de seguir a própria estrada.
*Edelvânio Pinheiro é jornalista e escritor, autor de sete livros e pai de Amy Brian.
Créditos (Imagem de capa): Carteirinha de Amy Brian em mestrado na USP e sua atuação em residência em cirurgia em São Paulo.