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Sexta-feira, 21 de Agosto 2026
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CRÔNICAS

Thathira tocou o sino avisando que está vencendo e sua mãe chorou

Depois de meses de oração, medo e coragem, o sino tocou para anunciar uma vitória. E, naquele som, uma família inteira ouviu a resposta de Deus.

Thathira tocou o sino avisando que está vencendo e sua mãe chorou
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Crônica de Edelvânio Pinheiro*

Há sons que não cabem nos ouvidos. Eles atravessam o peito e fazem a gente cair de joelhos de gratidão. Foi assim que soou, nesta tarde de quinta-feira, o sino do Instituto de Oncologia Felício Rocho, em Belo Horizonte, quando minha filha Thathira Mickaelle estendeu a mão e tocou aquilo que, para quem está de fora, pode parecer apenas um badalar de metal, mas que para nós — pai, mãe, família, amigos — foi o eco de meses de súplica finalmente respondida.

Ela, que trata de um tumor maligno na parótida, explicou que aquele som é a vitória de ter suportado a etapa mais dura, e que é também esperança para quem ainda está lá dentro, esperando a sua vez de fazer o sino soar.

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— Só quem tá lá entende isso, painho", ela disse. E é verdade. Mas hoje eu entendi um pouco, porque também estava lá, em espírito, ajoelhado como estive todos os dias, pedindo a Deus clemência pela vida da minha menina.

Deus escuta. Eu sempre acreditei nisso, mas há dias em que a fé pesa mais do que sustenta, e é preciso continuar de joelhos mesmo sem sinal nenhum de resposta. Pois a resposta veio hoje, na forma de um sino tocado por mãos que, há dois meses, enfrentavam radioterapia e quimioterapia com uma coragem que eu não sei de onde vem; só sei que vem de Deus, porque força assim não é deste mundo, é emprestada do céu.

E se o sino foi a vitória de Thathira, as lágrimas da mãe dela, foram a vitória de todos nós que amamos essa menina. Sandra não desgrudou um segundo da filha desde que essa notícia dolorosa chegou. A mãe não fraquejou diante dela, foi rocha quando precisava ser forte. Mas hoje, diante do sino, ela chorou. São lágrimas de quem segurou a barra em silêncio para não pesar mais ainda o fardo da filha, e que agora podia, enfim, sentir tudo o que sentiu sem precisar ser forte por mais ninguém, neste momento.

Chorar ali foi um gesto de amor tão grande quanto qualquer cuidado prestado nos bastidores. Foi a mãe dizendo, sem precisar de palavras, "aguentei porque você merecia que eu aguentasse, e hoje eu também posso quebrar".

E não foi só ela. A psicóloga, a dentista, a enfermeira, as recepcionistas, todas choraram junto. Quando estranhos choram pela vitória de alguém, é porque aquela pessoa tocou algo profundo demais para ficar só na ficha médica.

O doutor Robson Borges, oncologista que acompanha Thathira com um cuidado que vai muito além da medicina, disse que ela ganhou uma nova vida. E há frases que um médico só diz quando a ciência e a fé se encontram no mesmo ponto, porque ele sabe, com toda sua técnica, que ali também houve algo que a técnica sozinha não explica.

Thathira segue agora em acompanhamento, até a palavra final. E nós seguimos como sempre seguimos, de joelhos, gratos pelo caminho andado e confiantes no caminho que falta seguir.

Tem um detalhe que eu não consigo deixar de contar, porque para quem crê, não existe coincidência. O pano que ela puxou para fazer o sino soar era rosa. E rosa também era a cor do ipê florido que encontrou no caminho de volta para o apartamento, onde fica logo depois. Rosa é a cor que ela mais ama neste mundo, a cor da paixão de Thathira Mickaelle. Um sino rosa, uma árvore rosa, no mesmo dia, na mesma tarde. Como não enxergar ali um recado? Como não lembrar daquela passagem que diz que todas as coisas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus? Foi exatamente isso que vi nas imagens que recebi. Até a cor de um pano e as flores de uma árvore cooperando, nos detalhes mais simples, para confirmar que Deus estava ali, cuidando de cada passo da minha filha.

Agora, deixa eu escrever sobre gratidão. Obrigado a cada uma das dezenas de pessoas que colocaram a mão no bolso, muitas sem nunca terem visto o rosto da minha filha, para que ela pudesse continuar essa luta sem que o dinheiro fosse mais um peso. Obrigado à Dra. Kerry Anne, advogada que vestiu a causa de Thathira como se fosse sua, e que com sustentação jurídica derrubou a recusa inicial do plano de saúde e abriu a porta para o tratamento que hoje ela comemora ter vencido. Eu queria abraçar cada uma dessas pessoas, uma por uma, olho no olho, mesmo sabendo que não conheço o rosto de muitas delas. Mas Deus conhece. E é para Ele que eu levanto essa gratidão, pedindo que devolva em dobro, em vida longa e em paz, tudo o que cada uma delas nos deu sem pedir nada em troca.

O sino tocou na tarde desta quinta-feira. Mas o som dele, esse eu sei, vai continuar ecoando em cada joelho dobrado, em cada oração sussurrada de madrugada, em cada pessoa que ainda espera a sua vez de fazer o sino soar lá, em em todas as clínicas e hospitais de oncologia. Que a fé de Thathira, a força silenciosa de Sandra, e a bondade de tantas mãos anônimas sirvam de exemplo de que, quando a gente se une em amor e em fé, os milagres encontram caminho para acontecer.

Sei que a luta ainda não terminou, mas hoje, o sino disse que estamos vencendo.

Edelvânio Pinheiro é jornalista e escritor, autor de sete livros. Bacharel em Jornalismo pela Católica (UCA), Edelvânio Pinheiro tem licenciatura em Letras Vernáculas pela Universidade do Estado da Bahia (UNEB) e pós-graduação em Ciências Políticas.

Equipe do Instituto de Oncologia Felício Rocho
Equipe do Instituto de Oncologia Felício Rocho.

Créditos (Imagem de capa): Sandra chorou ao ver sua filha tocar o sino no Instituto de Oncologia Felício Rocho.

Água Preta News

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