*Crônica de Edelvânio Pinheiro
Há gestos que não cabem dentro de uma caixa. A embalagem pode ser grande, colorida, bonita, como a do brinquedo que Eben recebeu neste sábado à noite. Mas o verdadeiro presente nunca está no papelão, no plástico ou nas peças de montar. O presente mora na lembrança, no carinho e na consideração.
Mais uma vez, o empresário Guilherme, acompanhado da esposa e do pequeno Guilherme Filho, de apenas três anos, atravessou o caminho até minha casa. Vieram trazendo um presente para Eben, meu caçula. Um gesto simples para quem vê de fora, mas imenso para quem recebe.
Enquanto os adultos conversavam, as duas crianças transformaram a sala da minha casa em um universo particular. Durante cerca de uma hora, Eben e Guilherme Filho brincaram como só as crianças sabem brincar. Não precisavam combinar regras, não discutiam diferenças, não carregavam preocupações. Bastava uma peça encaixada na outra, um sorriso, uma descoberta e a imaginação fazia o resto.
Por um momento observei aquela cena quase em silêncio.
É curioso como as crianças conversam sem precisar dizer muito. Elas se entendem por meio das brincadeiras, dos olhares, das pequenas disputas que logo se transformam em risadas. Ali não havia interesses, conveniências ou formalidades. Havia apenas a pureza da infância.
Enquanto os dois brincavam, lembrei-me de minha mãe, Maria Pinheiro. Ela costumava dizer que preferia ver alguém agradando um filho seu do que agradando a ela própria. Dizia que essa alegria tinha outro peso, outra dimensão. Na época eu entendia suas palavras apenas pela razão. Hoje, como pai, compreendo pelo coração.
É exatamente assim que me sinto. Quem demonstra carinho pelo meu filho, de alguma maneira também está demonstrando carinho por mim. Talvez por isso aquele presente tenha significado muito mais do que um brinquedo novo. Significou que Eben foi lembrado. Foi considerado.
Conheço Guilherme como um empresário bem-sucedido, à frente da Super Sol Energia Solar, empresa que conquistou respeito em todo o extremo sul da Bahia. Sei também que seu nome começa a ser cogitado para desafios na vida pública de Itanhém. Sempre defendi que toda pessoa disposta a colocar seu nome à disposição da avaliação popular merece respeito, pois a política é uma das atividades mais exigentes e desafiadoras da vida em sociedade.
Mas, naquela noite, isso ficou em segundo plano.
Na minha casa não entrou o empresário, nem o homem que pode disputar eleições. Entrou um pai, acompanhado de sua família, levando alegria para outra criança. E, às vezes, é justamente nesses momentos mais simples que conhecemos melhor as pessoas.
O brinquedo, com suas peças coloridas, certamente fará parte das brincadeiras de Eben por muito tempo. Mas acredito que a maior lembrança daquela noite será a amizade que começa a nascer entre duas crianças e a certeza de que os pequenos gestos, quando são verdadeiramente sinceros, permanecem vivos muito depois que a última peça é guardada na caixa do presente que meu filho recebeu.
Créditos (Imagem de capa): Eben recebe brinquedo de Guilherme filho.