*Crônica de Edelvânio Pinheiro
Com a experiência de já ter sido pai outras vezes — e ponha outras vezes nisso — eu era capaz de jurar, com direito a banca examinadora imaginária, que meu caçula, Eben Howard di Joana-Kerry, teria papai como a primeira palavra pronunciada. Não por vaidade apenas, mas por estatística afetiva, afinal, pai experiente costuma confiar demais nos próprios precedentes.
Quebrei a cara. A primeira palavra foi mamã.
Na verdade, não foi mamãe, essa forma adulta, cheia de vogais abertas, sílabas bem distribuídas e intenção comunicativa clara. O que saiu foi mamã, assim mesmo: duas sílabas, quatro fonemas, economia sonora digna de um bebê que ainda está estreando no mundo da fala.
Do ponto de vista linguístico, sem precisar vestir o paletó de Ferdinand de Saussure nem abrir os livros de Linguística Geral que tenho em minha pequena biblioteca, isso é absolutamente esperado. Bebês começam falando o que é mais fácil ao aparelho fonador ainda em construção. Sons nasais, contínuos, produzidos com os lábios fechados e com apoio do ar nasal são mais simples de articular. O /m/ é um desses campeões de acessibilidade. Não exige explosão, não exige coordenação fina, não exige pressa. O bebê fecha os lábios, solta o ar pelo nariz e pronto. Lá se foi o fonema mais fácil de ser pronunciado por eles.
Depois de alguns dias, veio a minha vez. Fui chamado de Pá.
Repare no detalhe: uma sílaba, dois fonemas. Uma redução ainda maior do que aquela aplicada à mãe. Ora, se mamãe virou mamã, por que papai não virou papá? Por que, comigo, foi direto ao essencial, quase um apelido fonético? Pá.
Eu pensava comigo: “esse carinha tá me sacaneando”, porque os fonemas iniciais de mamãe e papai são bilabiais, aqueles que exigem encostar um lábio no outro para produzir o som.
Aqui entra outra lição básica da linguística infantil. O bebê não busca simetria; busca eficiência — ainda mais o meu, que, com apenas um ano e seis meses, parece ter a maturidade de um bebê de dois anos; até as cores ele já conhece desde um ano e qutro meses.
O /p/ também é um fonema bilabial. Esses dois fonemas, /m/ e /p/ pertencem à mesma família articulatória, mas há uma diferença importante a ser destacada. Enquanto o /m/ é nasal e contínuo, aquele tipo de fonema que faz uma cocegazinha no nariz, principalmente quando pronunciado bem devagarinho, o /p/ é oclusivo e explosivo. Ensinei isso com muita clareza aos meus alunos do ensino médio quando lecionei nas escolas de Medeiros Neto. Aliás, tenho muito orgulho de ter feito parte da educação daquela cidade. Das três turmas que tive, duas me escolheram como melhor professor para ser homenageado na formatura. Guardo com muito orgulho as placas que recebi.
Mas voltando ao fonema /p/, ele exige que o ar seja bloqueado e liberado de uma vez. É um pequeno estouro. Para um bebê, isso já representa um grau a mais de dificuldade na pronúncia.
Por isso, meu pequeno Eben, fazendo valer o melhor conceito de inteligência que já li — a capacidade de driblar obstáculos para solucionar problemas —, como um falante iniciante, resolveu simplificar. Cortou a repetição, eliminou a vogal final e ficou só com o essencial comunicativo. Pá para ele bastava.
Eu entendi. Ele entendeu. E a nossa “última flor do Lácio, inculta e bela”, a Língua Portuguesa, cumpriu satisfatoriamente a sua função. Não é verdade, Olavo Bilac?
Confesso que fiquei matutando nisso por dias. Afinal, sou da área. Tenho licenciatura em Letras Vernáculas pela Universidade do Estado da Bahia. Já ensinei fonética, já discuti variação linguística. Mesmo assim, ali estava eu, perplexo diante de um bebê que me explicava, sem saber, que teoria nenhuma vence a prática da vida.
Logo a fala dele avançou. Passei a ser chamado de Papa. Até brinquei, no primeiro momento, dizendo que logo, logo viria o Leão, em referência ao Papa Leão. Dá pra notar em Papa a repetição silábica, treino motor, reforço rítmico.
Depois, não demorou muito e ele mudou para Papaí, assim mesmo, com hiato. E cada etapa marcava o amadurecimento da fala e, claro, o amadurecimento do vínculo entre pai e filho.
E então entendi o que a linguística explica, mas é a vida que confirma. Para Eben a mãe veio primeiro não somente porque é mais fácil de dizer, por facilidade fonética, mas porque é mais constante de sentir. A mãe é presença diuturna, é cheiro, é colo, é alimento, é abrigo. Antes de ser palavra, a mãe já é tudo.
O pai vem depois, construindo-se na linguagem assim como na relação com o filho. Primeiro em forma reduzida, depois repetida, depois completa. E quem sabe, até ganha um apelido.
Porque, convenhamos, tenho outros filhos que me chamam de Zé Banana — apelido dado pela primogênita, Thathira Mickaelle, e consolidado democraticamente no ambiente familiar. Portanto, conhecendo a dinâmica da língua e da casa, acredito que o próximo nome que Eben vai me dar seja apenas Zé. E daí para inserir uma banana nesse nome é pouca coisa.
E é mesmo assim, caro leitor: a linguística explica, mas a família, como sempre, dá a última palavra.
*Edelvânio Pinheiro tem graduação em Jornalismo e Letras Vernáculas e pós-graduação em Ciências Políticas. É também escritor, autor de sete obras, e policial militar.
Créditos (Imagem de capa): Eben Howard di Joana-Kerry, filho de Edelvânio Pinheiro e Eliene Lima.
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