Crônica de Edelvânio Pinheiro*
Há cidades que têm monumentos de pedra. Outras, têm pessoas. No Hospital Maria Moreira, muitos filhos chegaram ao mundo pelas mãos firmes e humanas da enfermeira Ana Cleusa, ou simplesmente Cleusa Enfermeira. Quem nunca teve um filho que não passou por aquelas mãos? Mãos que, além de segurar, acolhem. Cleusa não é só enfermeira. Ela é dessas presenças que Deus espalha pelo mundo para lembrar que Ele ainda passa por aqui.
Líder social, mulher de fé, há anos pisando no chão simples da Pastoral da Criança, Cleusa construiu uma vocação que vai além do jaleco. Por isso foi tantas vezes reconhecida como a melhor enfermeira da cidade. Não por vaidade, mas por justiça. Porque o mínimo que uma comunidade pode fazer é agradecer quando alguém ama sem medir esforços.
Quando a dor chegou à minha casa, na saúde frágil de Thathira Mickaelle, Cleusa não chegou com respostas prontas. Chegou com joelhos dobrados. Tornou-se mais uma religiosa silenciosa, dessas que não fazem barulho, mas sustentam o mundo com oração. Pediu a Deus vida. Pediu saúde. Pediu o que só quem crê de verdade sabe pedir.
No início desta semana, recebi dela um vídeo. Um sermão simples de um padre, sem assinatura famosa, do Evangelho do Dia. Mas havia ali uma verdade antiga como o próprio Cristo: o coração cansado esquece fácil da bondade divina. Quando o peso da noite é grande demais, a fé parece pequena. E então lembramos dos pães multiplicados, não como um espetáculo, mas como sinal de que Deus age quando tudo parece insuficiente.
O mar, no Evangelho, nunca é apenas água. É o caos. O medo. O descontrole. É quando os discípulos remam e não saem do lugar. E é justamente ali que Jesus caminha. Não para acabar com o vento, não para prometer soluções imediatas, mas para dizer algo que muda tudo:
“Coragem. Sou eu. Não tenhais medo”
Ele não diz que o mar vai se acalmar agora. Ele diz que está presente. E isso basta. Porque quando Deus está, o medo perde força, mesmo que as ondas ainda batam. A fé não nega a dor, mas reorganiza o que estava desordenado. Ela não silencia os questionamentos, mas sustenta quem pergunta.
Jesus não abandona quem está cansado de crer. Pelo contrário. Ele se aproxima ainda mais de quem treme, de quem questiona, de quem acha que não vai aguentar. A noite sem dormir não define o fim da história. Ela é apenas parte da travessia. Deus não apressa o amanhecer, mas garante que ele virá.
E enquanto o dia não chega, Ele envia Cleusas pelo caminho. Pessoas que cuidam. Que oram. Que permanecem. Pessoas que, sem perceber, tornam-se resposta de Deus à oração de alguém.
Porque às vezes, a fé não vem como milagre imediato. Vem como presença fiel no meio do mar agitado. E isso, quando se acredita de verdade, é mais do que suficiente.
Esta crônica é, portanto, um registro da fé que se faz ação nessa enfermeira que todo itanheense ama, da esperança que teima em florescer no coração de uma família, da coragem silenciosa de uma filha que luta. É a certeza, forjada na fornalha da dor, de que o mar – símbolo do caos – é também o caminho escolhido por Deus para chegar até nós. E Ele vem. Sempre vem. Mesmo sobre as ondas mais furiosas, mesmo na hora mais escura.
Assim, o amanhecer não será apressado. Mas, pela promessa d’Aquele que é a Luz, ele há de vir. E até lá, Cleusa permanece de joelhos, Thathira segue lutando, e o sermão enviado no vídeo permanece guardado no coração deste pai que crê firmemente.
“Coragem. Sou eu. Não tenhais medo”, disse Jesus.
E isso basta. Só isso basta.
*Edelvânio Pinheiro é escritor e jornalista e pai de Thathira Mickaelle.
Créditos (Imagem de capa): Ana Cleusa.
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