Edelvânio Pinheiro*
Sentado em um banco qualquer, no meio do vai e vem de uma avenida, Eben observa o mundo com seus olhos atentos, curiosos e alegres. Um ano e um mês de vida, e já carrega no sorriso a mesma energia que faz a cidade parecer mais humana e mais próxima. Aquela cena singela, porém, é mais do que um momento fofo; é a sala de aula mais importante da sua vida, e nossa função, como pais, licenciados ou não na arte de criar meninos, é sermos seus guias de descobertas.
Ao redor, os carros passam apressados, cada um com sua pressa, seu destino, suas histórias que não param para notar a criança que descobre o mundo ali, no meio da rotina dos adultos. E eu, pai, fotografo e observo com aquela mistura de orgulho e preocupação, o coração apertado de quem deseja apresentar a ele cada canto, cada cheiro, cada som, cada gesto que a vida pode ensinar. E é aqui que a primeira lição da presença se aplica. Não se trata de somente estar fisicamente ao lado, mas de estar mentalmente e emocionalmente conectado. Desligue o celular, silencie as preocupações internas e simplesmente testemunhe o que chama a atenção deles. É nesse olhar compartilhado que a conexão e a confiança se fortalecem.
Quero que ele veja o movimento da cidade, mas também a calma de uma praça; que sinta o cheiro do café da esquina, mas também o perfume da chuva ao cair no chão de terra batida; que ouça buzinas, mas também o canto dos pássaros, dos grilos e das cigarras; que aprenda a correr, mas que também saiba parar e contemplar, ainda que seja por um breve momento, a natureza.
O contato com texturas diferentes, como a aspereza de uma casca de árvore, a maciez de uma flor, a lisura de uma pedra, por exemplo, além do prazer sensorial é também um estímulo essencial para o desenvolvimento do cérebro da criança. Cada sensação desperta conexões neurais, ajudando a formar redes complexas que serão a base para a aprendizagem, a percepção do mundo e a capacidade de resolver problemas.
Fale isso com seu filho, nomeando o que ele vê, ouve e sente: “Olhe o carro barulhento!”, “Escute o passarinho cantando!”, “Sinta o vento balançando seu cabelo!”. Ao colocar em palavras essas experiências, você descreve o mundo e ensina a criança a observar, perceber e relacionar diferentes estímulos, desenvolvendo atenção, curiosidade e consciência do ambiente ao redor.
Esta é a linguagem que constrói a mente em expansão, preparando o seu filho para compreender o mundo com sensibilidade, raciocínio e criatividade. Não é inoportuno afirmar que a tela não oferece nada disso.
Cada ambiente que a criança conhece é um degrau para seu desenvolvimento, para sua sensibilidade, para o futuro homem que ele vai se tornar. E para que isso aconteça, é importante permitir a autonomia da descoberta. Claro, com segurança. Deixar seu filho sentar sozinho em uma cadeira, dentro do campo de sua visão, é um ato de confiança. Seria como se você dissesse “eu confio em você e estou aqui se precisar”. Isso nutre a autoestima e a coragem de seu filho explorar. Resistir ao impulso de dizer “cuidado!” a cada segundo e, em vez disso, observar como ele lida com o novo, é permitir que a resiliência e a capacidade de resolver problemas nasçam. A verdade é que a superproteção é uma gaiola dourada; ela impede o voo.
E ali está Eben, pequeno, sozinho no banco, mas gigante na descoberta. Cada olhar direlicionado aos carros, aos pedestres, à vida que passa, me lembra que minha função é ser ponte, é mostrar o mundo, apresentar caminhos, abrir portas. Ser ponte significa não dar as respostas, mas sim as perguntas. Em vez de “isso é um caminhão de lixo”, experimente perguntar as pequeno o que ele acha que aquele caminhão grande está carregando. Isso estimula a curiosidade, a linguagem e o pensamento hipotético. Aponte para as coisas, crie narrativas simples sobre as pessoas que passam, transforme o cotidiano em uma história fascinante.
Eben precisa viver o máximo possível, conhecer tudo, se encantar com tudo, porque é nesse aprendizado que o mundo se torna vasto e gentil. E este encantamento é cultivado através do exemplo. Ele não aprenderá a contemplar a chuva se eu e a mãe dele a encararmos como um inconveniente. Não valorizará o canto dos pássaros se nossa casa estiver sempre inundada pela tela, seja celular, tablet ou TV. O desenvolvimento infantil começa com o nosso próprio reencantamento com o mundo. Quando paramos para cheirar uma flor com um verdadeiro interesse, estamos dando a lição mais poderosa ao nosso filho.
E, assim, com o tempo, o pequeno Eben, que hoje observa o mundo de um banco qualquer, se tornará capaz de caminhar com olhos atentos, coração aberto e mente aguçada.
*Edelvânio Pinheiro é bacharel em Jornalismo pela Católica (UCA), foi editor do jornal Alerta de Teixeira de Freitas e correspondente do A Tarde, de Salvador, na extinta sucursal do extremo sul, e é diretor-geral do site Água Preta News. É também radialista, ex-chefe de jornalismo da Rádio Extremo Sul de Itamaraju e diretor-geral da Rádio Master FM, de Itanhém. Escritor, autor de sete obras, incluindo uma obra infantojuvenil publicada no Brasil e em Portugal pela editora Flamingo, possui licenciatura em Letras Vernáculas pela Universidade do Estado da Bahia (UNEB) e é pós-graduado em Ciências Políticas.