*Crônica de Edelvânio Pinheiro
A ideia de escrever esta crônica me veio depois de assistir no You Tuber a um discurso recente do presidente Lula. Ele questionava os homens públicos sobre o que escreveriam em um livro, ao final de seus mandatos. O discurso pode ser visto aqui.
“O que você vai contar se você não fez nada?”, perguntou Lula no discurso.
A provocação ficou martelando na minha cabeça. Então fiquei imaginando o que alguns vereadores de Itanhém e o prefeito Bentivi haveriam para contar se resolvessem escrever suas memórias.
Logo visualizei a capa da obra com letras douradas, talvez uma foto séria em preto e branco, e um título grandioso, algo como “Uma vida dedicada a Itanhém”. Mas, ao virar a primeira página, o leitor perceberia que essa Itanhém não é a cidade do povo, e sim a cidade reduzida a meia dúzia de amigos ricos, familiares bem acomodados e aliados de ocasião.
O primeiro capítulo poderia se chamar “As obras da minha vida”. Mas não espere escolas dignas, hospital equipados realizando cirurgias ou bairros e estradas estruturados. O relato viria recheado de “conquistas” como empregos arranjados para familiares, contratos para conhecidos e favores a empresários amigos. A narrativa mostraria com orgulho como o poder público pode ser transformado em patrimônio privado.
O segundo capítulo, talvez “A base de sustentação”, seria um verdadeiro elogio ao coro afinado de vereadores que, em vez de fiscalizar, passam nas cadeiras da Câmara Municipal rasgando seda para o chefe do Executivo. Discursos, votos e homenagens, tudo registrado como provas de gratidão, afinal, a cadeira na Câmara não serviu ao povo, mas ao pagamento de dívidas políticas e favores pessoais.
Já o capítulo “Os problemas que não existiram” seria um exercício de mágica literária, fazendo desaparecer da história episódios como a morte do garoto Flávio Ramon, vítima de uma tragédia anunciada na Escola Municipal São Bernardo que, na ocasião daquela triste cena, não oferecia a mínima segurança. No livro, se muito, caberia uma nota de rodapé. Porque reconhecer falhas exige coragem e esse nunca foi um ingrediente da narrativa de Bentivi e do povo que sempre o acompahou.
O último capítulo se chamaria “Meu legado”. Um legado escrito nas festas, nos grupos de cachaça, nos almoços e jantares entre compadres e nos brindes em mesas fartas. O leitor, ao fechar o livro, não encontraria a memória de um prefeito que serviu ao seu povo, mas sim o manual de como transformar a política em negócio de família.
Lembra que Lula perguntou “O que você vai contar [no livro que escreveria] se você não fez nada?”. Talvez Bentivi vá contar muito, mas nada que interesse ao povo.
*Edelvânio Pinheiro é bacharel em Jornalismo pela Católica (UCA), foi editor do jornal Alerta de Teixeira de Freitas e correspondente do A Tarde, de Salvador, na extinta sucursal do extremo sul, e é diretor-geral do site Água Preta News. Foi diretor do Sindicato dos Jornalistas Profissionais da Bahia (SINJORBA), na diretoria do extremo sul, é também radialista, ex-chefe de jornalismo da Rádio Extremo Sul de Itamaraju e diretor-geral da Rádio Master FM, de Itanhém. Escritor, autor de sete obras, incluindo uma obra infantojuvenil publicada no Brasil e em Portugal pela editora Flamingo, possui licenciatura em Letras Vernáculas pela Universidade do Estado da Bahia (UNEB) e é pós-graduado em Ciências Políticas.