*Crônica de Edelvânio Pinheiro
O mundo cabe numa fruta. Ou melhor, cabe no olhar de um bebê diante de algo nunca antes visto. Eben Howard, nove meses, ainda não sabe o nome das coisas, mas já sabe que elas têm cheiro, cor, forma e, o mais fascinante, sabor. Nesta terça-feira (29), foi a vez da carambola.
A busca pela fruta estrelada foi longa. Percorremos feiras, mercados, até que, finalmente, numa prateleira de um supermercado da cidade, lá estava ela, amarelada, cerosa, com seus gomos perfeitos.
Eben esticou as mãos, como sempre faz. Desde o sexto mês, quando começou sua jornada alimentar, cada novo alimento é uma cerimônia. Ele toca, aperta, leva à boca — às vezes joga no chão, é claro —, mas tudo faz parte do ritual sagrado da descoberta.
Desta vez, não foi diferente. Segurei a carambola enquanto ele passava os dedinhos pelas bordas, sentindo as nervuras, a pele lisa e fria. Depois, cortei as extremidades dos gomos bem na frente dele, e seus olhos se arregalaram. Ofereci a fruta inteira, e ele, com a seriedade de um cientista diante de um experimento, levou a fruta à boca. Mastigou, pensou… e quis mais.
Assim tem sido com tudo: abóbora, batata, quiabo, beterraba, inhame, mandioca, cenoura, jiló, chuchu, brócolis, couve e vagem; arroz, feijão e amaranto; banana, tomate, uva, maracujá, nectarina, limão, melancia, abacate, pitaya, melão, kiwi, maçã, laranja, pera, goiaba, manga, pêssego, mamão e ameixa; além de ovo, carne e frango. Já, já vem o peixe.
Ele participa de todo o processo. Vê as frutas sendo abertas, acompanha o cozimento das verduras e legumes. Observa, atento, como quem sabe que há ali algo importante acontecendo.
Mas é importante dizer que, mesmo com toda essa variedade de alimentos, o leite materno continua sendo sua principal fonte de nutrição. E assim continuará até, pelo menos, os dois anos de idade, como orientam os pediatras. A comida é complemento, é descoberta — o leite, além de nutrição é acolhimento, segurança, conforto e vínculo com a mãe.
A introdução alimentar não é só sobre nutrição. É sobre permitir que um bebê, que já domina o sentar sem apoio, se sinta dono do próprio prato. É sobre criar memórias afetivas em torno de algo tão básico e vital quanto comer. Eben ainda não sabe o que é uma carambola, mas sabe que ela brilha, que tem gosto de novidade, e que papai e mamãe registraram tudo com fotos e vídeos.
E eu, claro, me emocionei novamente... Porque percebo que cada colherada, cada fruta nova, é um passo em direção ao mundo. E nesse caminhar tão pequeno e imenso ao mesmo tempo, eu e a mãe dele temos o privilégio de segurar sua mão, mesmo que, logo, logo ele queira segurar a colher sozinho.
*Edelvânio Pinheiro é jornalista e escritor.