*Crônica de Edelvânio Pinheiro
Eben chegou há oito meses, com olhos puxados de jabuticaba madura, desembarcando num planeta chamado Terra. Trouxe na mala apenas a leveza da curiosidade e, desde então, tudo lhe parece um espetáculo de magia. Tudo: o vento que balança as folhas do coqueiro perto de casa, o canto dos pássaros ao amanhecer, as placas de sinalização das ruas e até a sombra que dança no chão quando ele agita as mãos ou bate palmas sorridente.
Na manhã desta quinta-feira santa, o universo conspirou para lhe oferecer uma cerimônia de renascimento. Uma borboleta de asas amarelas — ainda úmidas e trêmulas de espanto — saía do casulo como um segredo sendo desdobrado. Eben assistiu, quieto, como quem presencia um milagre que os adultos já não enxergam mais.
— Ela já foi uma lagarta — expliquei, enquanto a borboleta, em gesto de confiança, aceitou pousar no meu dedo e depois no dele. Eben riu, e naquele instante, os dois — o bebê e a borboleta — selaram um pacto silencioso: eram ambos recém-chegados ao mundo, aprendizes da grande arte de simplesmente existir.
É verdade que as borboletas vivem apenas algumas semanas, mas a curiosidade de Eben não tem prazo de validade. Além disso, Einstein, aquele senhor de cabelos brancos e rebeldes, nos ensinou que o tempo é um malabarista. Para Eben, cada dia é uma eternidade de descobertas.
E quantas descobertas ainda estão por vir!
O primeiro encontro com uma lagarta (que ele ainda não sabe ser a mesma borboleta em outra roupa). O primeiro susto com o zumbido de uma abelha — aquela operária incansável que fabrica o mel que só depois de dois anos ele poderá provar. A primeira vez que sentir a areia da praia escorrer entre os dedos, descobrindo que o mundo pode ser sólido e líquido ao mesmo tempo. O espanto ao ver a lua seguindo-o pela janela do carro, como um companheiro de viagem. A mágica de descobrir que suas próprias mãos, além de bater palmas, podem também rasgar papel e acariciar o pelo macio dos gatos, que sua mãe tanto ama.
E depois, a lição de que os urubus não são assustadores, mas faxineiros do céu; de que depois da chuva vem o arco-íris, e depois da noite, o sol sempre volta.
Já eu, sou o guia improvisado desse viajante. Há uma honra indescritível em apresentar o mundo a alguém que ainda acredita que tudo é possível. Enquanto os outros correm contra o relógio, nós dois dançamos com ele. Cada minuto ao lado de Eben é um século de deslumbramento — porque o tempo, afinal, não se mede em horas, mas em espanto.
Eben ainda não sabe que um dia as borboletas se vão, que as folhas caem, que os urubus também anunciam finais. Tampouco sabe que, enquanto eu lhe ensino os nomes das coisas, ele me ensina a vê-las como se fosse a primeira vez.
Seguiremos assim, ele e eu, viajantes de mãos dadas, trocando descobertas e silêncios. E quando a borboleta amarela desaparecer no horizonte, não será um fim — será apenas mais um voo, porque ainda há tantas lagartas e tantos casulos prontos para se abrir e dar passagem a novas borboletas que surgirão por aí.
*Edelvânio Pinheiro é jornalista e escritor.