*Crônica de Edelvânio Pinheiro
Na manhã calma deste domingo, um gesto pequenino, vindo de mãos ainda tão miúdas, conseguiu tocar um coração de forma avassaladora. Eben, com seus apenas nove meses de vida, entregou à sua mãe um buquê de flores vermelhas. Não falava, não caminhava sozinho, mas dizia com aquele presente mais do que mil palavras seriam capazes. No meio das flores, um cartão escrito com ternura: “Sei que, enquanto eu durmo, você cuida de mim.”
Foi o primeiro Dia das Mães de Eliene Lima que, desde que soube que gerava uma vida, nunca mais foi a mesma. E é essa transformação silenciosa e profunda que poucos percebem, mas que muda tudo. No instante em que a maternidade se anuncia, nasce junto uma força que desafia o corpo, a mente e a alma.
Ninguém vê quando ela acorda de madrugada, inúmeras vezes, para verificar se o bebê está respirando tranquilo. Ninguém percebe a batalha interna que ela trava entre o cansaço e a doação, entre o medo e o amor absoluto. Durante a gestação, enfrentou enjoo, sono, dores e dúvidas, mas seguiu em frente com o brilho de quem carrega dentro de si a promessa de um mundo novo.
Depois do parto vieram também as noites em claro, os choros que não se decifram facilmente, as mamadas que não respeitam relógios, as roupas sujas, os banhos apressados, o café frio. E, ainda assim, em meio ao caos de roupas e brinquedos espalhados, ela sorri. Porque há um par de olhos, parecidos com duas lindas jabuticabas, que a encara como se ela fosse o próprio céu.
E ela chorou!
Chorou porque mãe é abrigo, mesmo quando está exausta. É silêncio que observa, mãos que protegem, olhos que preveem. É quem segura o choro para não assustar o filho. É quem se anula em alguns momentos para que o filho floresça. É quem aprende, todos os dias, a lidar com a culpa, com as cobranças e com a imensidão de amar sem esperar nada em troca.
Por isso, aquele buquê simples, comprado no dia anterior em uma floricultura da cidade, entre dedos gordinhos, tinha um peso que só ela sabia sentir. Era o primeiro sinal, ainda que ingênuo, de que seu esforço estava sendo visto. E foi por isso que ela chorou. Chorou porque, naquele abraço apertado, o mundo parou por um segundo. E ela entendeu, definitivamente, que todo o amor que deu já começava a retornar para ela.
*Edelvânio Pinheiro é jornalista e escritor.
Créditos (Imagem de capa): Ebem e sua mãe, Eliene Lima.