*Crônica de Edelvânio Pinheiro
Há dores que não se explicam. Elas simplesmente moram dentro da gente, silenciosas, feitas da mesma matéria de que somos feitos. A ausência da minha mãe, Maria Pinheiro, é um vazio que respira comigo todos os dias. Sou o filho caçula e, agora amadurecido pelo tempo, também sou pai de Eben, meu caçula de um ano e dois meses. O que mais me corta o coração é saber que ele jamais conhecerá a avó que eu tanto sonhei ter ao seu lado.
Eben tem meus traços e os de Thathira Mickaelle, minha filha, a neta pela qual minha mãe daria a vida. Foi sob o teto dela que Thathira cresceu, naquela casa onde o amor era o alimento mais farto. Mas o destino foi capaz de uma crueldade silenciosa.
Dias atrás, uma mensagem de Luiz Henrique, meu filho que carrega nas veias o dom da literatura, iluminou a tela do meu WhatsApp com uma foto incomum. Criada por inteligência artificial, ela materializava o impossível: minha mãe, com um sorriso sereno, segurava Eben no colo. A cena que eu mais desejei e que nunca se realizará. O abraço que me faltou testemunhar. O colo que Eben nunca experimentará.
A imagem me atingiu com uma força brutal. Olhei por uma fração de segundo, e a emoção me rasgou por dentro. Não tive coragem de sustentar aquele olhar. Era uma invenção, mas era também a mais pura concretização de um desejo. Junto da foto, Luiz enviou um poema de sua autoria, daqueles que só a alma é capaz de escrever. Ele falava da força de um abraço que transcende o tempo. Só esta noite, com o mundo quieto ao meu redor, consegui lê-lo. E chorei. Chorei porque, nas palavras do meu filho, havia a eternidade de um gesto que a vida negou a mim e a Eben.
Mais cedo, hoje, embalei Eben até que adormecesse em meu colo. Ele, que ainda não tem acesso às telas, observa cada movimento meu com uma atenção que desarma. Enquanto eu trabalhava, buscando trilhas para um podcast, deparei-me com um instrumental mexicano. Uma guitarra que transformava a saudade em melodia. Deixei que o som preenchesse a minha biblioteca. Eben adormeceu ouvindo aqueles acordes latinos, como se a música viesse de um lugar distante, talvez do mesmo lugar onde agora minha mãe está.
E foi então que entendi. Embora os braços dela nunca tenham segurado Eben, o amor de minha mãe não se perdeu. Ele permanece, costurado em meu ser, refletido no olhar atento de Eben, no talento sensível de Luiz, na doçura de Thathira e em cada habilidade dos demais filhos que Deus me concedeu. Está na poesia que meu filho escreveu, na foto que me fez chorar e no silêncio que dói dentro de mim pela ausência dela.
A inteligência artificial criou uma imagem. Mas o que dá vida e verdade àquela cena é mais profundo do que qualquer algoritmo pode alcançar. É a saudade que nutre, a memória que aquece, o amor que não morre. É esse mesmo amor que segura Eben todos os dias, no colo invisível da eternidade.
OUÇA o instrumental mexicano com que fiz Eben dormir:
*Edelvânio Pinheiro é bacharel em Jornalismo pela Católica (UCA), foi editor do jornal Alerta de Teixeira de Freitas e correspondente do A Tarde, de Salvador, na extinta sucursal do extremo sul, e é diretor-geral do site Água Preta News. É também radialista, ex-chefe de jornalismo da Rádio Extremo Sul de Itamaraju e diretor-geral da Rádio Master FM, de Itanhém. Escritor, autor de sete obras, incluindo uma obra infantojuvenil publicada no Brasil e em Portugal pela editora Flamingo, possui licenciatura em Letras Vernáculas pela Universidade do Estado da Bahia (UNEB) e é pós-graduado em Ciências Políticas.