* Crônica de Edelvânio Pinheiro
Confesso aos meus leitores que hoje foi um dia fatigante. Um daqueles em que a gandola e o coturno pesam mais que o corpo, e a mente parece arrastar um fardo ainda maior. É Dia do Soldado, mas, para mim, também é dia de angústia. Talvez porque, no fundo, eu saiba que estou sendo condenado pela minha própria escolha.
Repete-se por aí que “somos escravos das nossas escolhas e senhores das nossas consequências”. Repito isso a mim mesmo, como quem se agarra a uma verdade incontestável. Mas essa frase não explica o que realmente dói, afinal, quase nunca estamos prontos para escolher. Apenas escolhemos e, depois, carregamos o peso da decisão.
Hoje, a paz me falta. Ainda assim, reconheço que ninguém me obrigou. Não houve ordem imposta, nem qualquer coação. Foi decisão minha, dentro da lucidez que me esforço para preservar. E é justamente por isso que preciso ser homem, no sentido mais humano da palavra e admitir que o caminho que sigo, ainda que agora me fira, é, indubitavelmente, fruto da minha própria escolha.
O problema é que a vida não nos prepara para escolher. Nascemos em um berço que não pedimos, ouvimos vozes que moldam nosso olhar e, pouco a pouco, aprendemos, ou deixamos de aprender, a distinguir certo de errado dentro dos limites que nos foram dados. Filosoficamente, isso me inquieta, afinal, se as bases da escolha já estão contaminadas pelo contexto em que cresci, como esperar de mim a decisão perfeita? Talvez toda escolha carregue em si uma dose de falha inevitável, porque o terreno que piso desde criança é movediço, instável, e nele não existe solo firme onde repousar certezas.
E, ainda assim, aqui estou, prisioneiro de minhas escolhas. O peito aperta, a alma cansa, mas não posso culpar ninguém além de mim. Recordo de Sartre, quando dizia que estamos condenados à liberdade; e talvez seja isso mesmo, não existe fuga dessa responsabilidade. A maturidade, penso agora, não é vencer todas as batalhas, mas encarar que a liberdade de escolher cobra caro, e que esse preço, muita das vezes, é solitário.
Assim, nesse Dia do Soldado, compreendo que a maior guerra não acontece nos campos de batalha. Ela se trava dentro de nós, entre aquilo que fomos, aquilo que somos e aquilo que gostaríamos de ser. E o que é pior: não há vitória fácil nesse combate, porque nele cada golpe vem de dentro e cada cicatriz permanece invisível.
*Edelvânio Pinheiro é jornalista, militar e escritor.
Fonte/Créditos: Foto ilustrativa