*Crônica de Edelvânio Pinheiro
No último dia 8 de março, quando meu tio Carmindo Pinheiro completava seus gloriosos 97 anos, com um pressentimento suave e triste, escrevi que o som do acordeom já não ecoava como antes. Hoje, com o coração apertado e um nó na garganta que custa a desfazer, confesso que o acordeon calou-se para sempre. Na tarde serena desta quarta-feira (17) meu tio partiu, depois de um vaivém angustiante de idas e vindas ao hospital, que nos preparou, sem que soubéssemos, para este adeus.
Não há como descrever Carmindo sem que a alma se encha de uma doce e tranquila reverência. Sua beleza serena, aqueles olhos azuis que eram janelas para um céu calmo e infinito, sempre hipnotizava. Confesso, com a humildade de quem fala a verdade, que nunca fui tão belo quanto ele, e tampouco herdei sequer metade de sua sagaz inteligência e seu equilíbrio emocional. Mas nele, eu me achava. Na estatura, na cor da pele, na maneira gentil de caminhar pelo mundo. Isso me inundava de um orgulho quieto, como quem se vê num reflexo distante e, ainda assim, sente, com todas as certezas, que pertence a uma linhagem de homens verdadeiramente bons.
Ele me chamava de “Neném”. Assim, no singelo, no doce, tal e qual como minha mãe, Maria Pinheiro, costumava fazer. E cada conselho, cada palavra sábia, vinha sempre envolta no mesmo ritual sagrado, com a Bíblia aberta em suas mãos calejadas pela vida, iniciando a fala com aquela expressão que guardo no mais profundo do meu ser, como um tesouro: “Escuta aqui, Neném…”. A Bíblia era seu farol, seu Vade Mecum inquestionável. Dali, ele tirava a bússola que norteou cada passo de sua longa e bem vivida jornada.
As borboletas sempre estiveram presentes nos meus lutos e despedidas mais dilacerantes. Quando minha mãe partiu, na cidade paulista de Itanhaém, envolta pela generosidade da Mata Atlântica, uma borboleta azul, de um azul quase irreal, veio pousar na minha mão trêmula. Naquele instante de pura dor, citei essa visita celestial em uma crônica de despedida. Foi como se o céu, em sua infinita misericórdia, tivesse enviado uma mensageira silenciosa, um susurro alado para lembrar este coração descrente que a vida, insistentemente, se renova mesmo no auge da agonia.
E agora, como se a história registrasse sua poesia com asas próprias, eis que minha prima Branca me envia um vídeo recentemente. Nele, uma borboleta amarela, vibrante e dourada pelo sol, invade sua casa e pousa, delicada, em sua mão. Branca foi a filha dedicada, a que nunca se desprendeu das raízes do pai. Durante todos os anos finais do meu tio, ela cuidou dele com uma devoção que beira o sagrado, assim, com uma paciência de santa, um zelo de anjo e um amor tão puro que só pode ser descrito como divino. Aquela borboleta amarela, talvez, tenha sido o sinal que seu coração precisava para este doloroso momento de partida, como se fosse a confirmação de que nenhum gesto de carinho se perde, de que todo amor dedicado se transforma, um dia em asas e voa.
Hoje, quando penso em meu tio, minha mente não vê um fim. Vejo uma grande e gloriosa metamorfose. O homem que foi música, que foi conselhos sábios e equilíbrio sereno, agora se fez borboleta. O acordeom, sim, emudeceu. Suas notas não preencherão mais as igrejas. Mas o silêncio que ficou trasforma-se em um espaço sagrado, um palco de ar onde agora voam, leves e eternas, as nossas mais suaves lembranças. Azul como a borboleta que me visitou, amarela como a borboleta que visitou Branca. Cores que se entrelaçam no infinito, em um espetáculo mudo que grita ao coração, dizendo alto e em bom som que o amor não morre, jamais.
E assim, entre lágrimas que lavam a alma e asas que acariciam o céu, percebo, com uma paz que dói e acalma ao mesmo tempo, que meu tio Carmindo Pinheiro não se foi por completo. Ele continua aqui. Voando devagarinho, pousando em nossos corações, lembrando a todos nós, com sua serenidade transformada em luz, que a vida é um sopro breve, mas o amor que deixamos para trás é eterno.