Crônica de Edelvânio Pinheiro*
Minha filha acaba de entrar no centro cirúrgico em São Paulo. O relógio segue andando, mas o tempo, para mim, parou. Esta noite foi longa — longa como só as noites de quem ama de verdade conseguem ser. Em pouco mais de cinquenta anos de vida, nunca experimentei uma angústia tão profunda, tão silenciosa e, ao mesmo tempo, tão barulhenta dentro do peito. A madrugada de hoje talvez tenha sido a mais extensa que já atravessei.
Enquanto o mundo dormia, de joelho, eu conversei com Deus. Não foi uma conversa formal, dessas repetitivas. Foi um diálogo cru, verdadeiro, às vezes embargado, às vezes quase sem palavras. Agradeci pelo amparo que tenho sentido em cada detalhe, pelas mensagens que chegam, pelas orações que não vejo, mas sinto. E pedi. Pedi muito. Pedi com o coração desarmado. Ousadamente, quase de forma inegociável, pedi a vida da minha filha.
Implorei ao Criador lembrando do futuro do meu neto Bento — que precisa da mãe para aprender o mundo, para crescer seguro, para saber verdadeiramente o que é colo. Implorei lembrando dos sonhos interrompidos, das risadas ainda não dadas, das histórias que ainda precisam ser escritas. Implorei como pai, como homem pequeno diante do mistério da vida, como alguém que sabe que não controla nada, mas confia tudo.
Enquanto escrevo, as palavras se embaralham na tela, distorcidas pelas lágrimas. Não sei quando vou parar de chorar. A dor de cabeça parece a mais agressiva de todas, talvez porque venha do excesso de pensamento, do medo contido, da esperança esticada ao limite.
Amy Brian, minha outra filha, participa da cirurgia. E isso tem sido o maior alívio para o coração de Thathira e para o nosso. Há poucos instantes, Amy me disse que Thathira já está dormindo. Disse com a serenidade de uma profissional que conhece o ambiente, os procedimentos, os riscos. Disse também com o amor de irmã que vigia, protege e permanece. Dra. Amy estará presente e atuante em todos os momentos. Ela faz Residência em Cirurgia e Traumatologia Bucomaxilofacial no hospital onde Thathira está sendo operada, e isso não me parece acaso. Espero, em um futuro bem próximo, poder contar melhor essa história a vocês, em um livro que já nasce como projeto literário.
Se eu pudesse abraçar todas as pessoas que vêm orando individualmente em suas casas, aquelas que levantaram campanhas de oração em suas igrejas, se eu pudesse olhar nos olhos de cada um que tem apoiado financeiramente minha filha nessa luta, eu diria que eles estão salvando mais do que um corpo; estão sustentando uma família inteira. Cada oração é um braço que nos segura. Cada gesto é um lembrete de que não estamos sozinhos.
A presença de Amy Brian nesta cirurgia parece algo que Deus já havia desenhado há anos. A residência exatamente neste hospital soa como uma dessas respostas divinas que só entendemos quando o caminho já está sendo percorrido. É Deus dizendo, em silêncio, que está ali. É a demonstração clara de proteção a toda a minha família.
Hoje, espero. Espero com dor, com fé, com gratidão. Espero acreditando que Deus continua no controle, mesmo quando tudo em mim treme. E sigo pedindo, como pai, como servo, como alguém que ama sem medida: que a vida de Thathira seja preservada, cuidada e devolvida inteira aos nossos braços.
Edelvânio Pinheiro é escritor, jornalista e pai de Thathira Mickaelle.
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