Era uma noite quente de verão em Itanhém. O relógio marcava 22h23 quando saí do prédio da rádio Master FM, que fica na Praça da Liberdade, na região central da cidade. Ali, logo na esquina do Hotel Danúbio Azul, me deparei com uma cena tão bela quanto dolorosa.
Uma cachorra vira-lata, magra como se carregasse o peso do mundo sobre as costelas salientes e a pele marcada por cicatrizes invisíveis, amamentava apressadamente seus quatro filhotes. A cena era linda porque ali, no meio-fio de uma cidade que muitas vezes o poder público esquece de socorrer até uma criança que necessita usar diariamente uma bolsa de colostomia para sobreviver, um amor inabalável se manifestava. A mãe, exausta e faminta, pouco se importava com os carros que passavam ou com a indiferença de quem a via. Sua única urgência era alimentar os pequenos que, de olhos fechados, sugavam dela o que restava de força. Cada movimento seu era um ato de resistência, uma luta silenciosa contra a fome, o abandono e a crueldade humana.
Mas a cena também era triste. Triste porque aquela cadela não deveria estar ali, disputando espaço com os carros, motos, bicicletas e com seres humano que nem parecem humanos. Triste porque, para cada olhar enternecido que talvez se demorasse sobre ela, haveria dezenas de outros que desviariam com pressa ou desprezo, como se sua existência fosse um incômodo, um detalhe insignificante na paisagem urbana. Triste porque, enquanto ela dava tudo de si para manter seus filhos vivos, pessoas donas da razão e da consciência, negam a um animal um pouco de comida ou uma vasilha d’água. E mais triste ainda porque há aqueles que não apenas ignoram, mas ferem. Há os que chutam, envenenam e matam, como se a vida que pulsa nesses pequenos corpos fosse menos digna de existir.
Naquele instante, diante daquela mãe de rua que amava como qualquer mãe, senti um nó na garganta. Questionei ao Criador sobre o que nos fez tão insensíveis, como podemos seguir em frente sem enxergar uma cena daquela. Como podemos fechar os olhos para o sofrimento de quem não tem voz, de quem depende apenas da nossa compaixão para sobreviver?
Depois de alguns minutos, a cadela percebeu que eu a fotografava e ergueu a cabeça. Seus olhos, profundos e cansados, pareciam perguntar o que eu faria. Mas ela não esperou resposta. Apenas lambeu os filhotes, como se quisesse limpar deles a dor do mundo, e se levantou com dificuldade, arrastando o corpo fraco e exaurido. Seguiu seu caminho, sem saber se no outro dia encontraria um teto, um prato de comida ou uma mão que a acolhesse juntamente com seus meninos de quatro patas.
Eu entrei no meu carro e também segui, com a culpa e a reflexão que aquela cena me impusera naquele final de domingo triste e angustiante.

Fonte/Créditos: Crônica de Edelvânio Pinheiro