Crônica de Edelvânio Pinheiro*
Aqui em casa, a linguagem anda de mãos dadas com o afeto e, às vezes, tropeça de um jeito bonito.
Nosso filho, que acaba de completar dois anos, resolveu reinventar o português à sua maneira. Em ano de Copa do Mundo, “Fegurinha”, ele diz, com toda a convicção, como se tivesse descoberto uma nova regra gramatical. “Miliçoca”, ele fala enquanto aponta para o nada com a autoridade de quem sabe exatamente do que está falando. Em outros momentos, pede o “pibama” na hora de dormir ou fala do “bagujero” quando brinca com seus carrinhos.
Curioso é que, nesta casa, tanto eu quanto sua mãe, a poetisa Eliene Lima, somos licenciados em Letras Vernáculas pela Universidade do Estado da Bahia. Passamos anos estudando fonemas, morfemas, variações linguísticas, normas e desvios. Aprendemos, com Joaquim Mattoso Câmara Jr., que o sistema fonológico do português se organiza por oposições e traços distintivos, e que a aquisição desses contrastes pela criança não se dá de forma imediata, mas gradual, marcada por simplificações e reestruturações. Ao ouvir “fegurinha”, reconhecemos um ajuste no eixo vocálico; em “miliçoca”, uma reorganização que pode ser lida como estratégia de redução de complexidade articulatória; em “pibama” e “bagujero”, outras soluções igualmente criativas para desafios fonológicos próprios desse período, ocasionado por processos típicos da aquisição da linguagem.
De Ferdinand de Saussure, ficou-nos a noção de que a língua é um sistema de valores, em que cada signo se define por sua relação com os demais. Nosso filho, ainda à margem da norma estabilizada, parece operar em um momento de “parole” em estado puro, experimentando o signo antes de sua fixação social plena. Entre significante e significado, ele tateia, ajusta, negocia, como quem ainda está descobrindo as regras do jogo.
E, nas leituras de Hidelbrando Dacanal, aprendemos que a linguagem não se esgota na estrutura; ela é também experiência, cultura, gesto humano. A palavra, antes de ser norma, é vivência e é talvez por isso que soe tão inteira quando dita por quem ainda não a aprisionou em convenções rígidas, como os bebês.
Mas, diante de “fegurinha”, “miliçoca”, “pibama” e “bagujero” faladas por Eben, toda teoria se curva. Não por incapacidade, mas por encanto.
Eu e a mãe dele sabemos exatamente o que está acontecendo. Sabemos que Eben ainda está construindo seu repertório fonológico, que aplica processos como substituição, assimilação e simplificação de encontros mais complexos. Sabemos que não há erro, há sistema em formação; uma gramática emergente, provisória, mas coerente em seus próprios termos. Ainda assim, quando ele fala, não ouvimos apenas fenômenos linguísticos. Com um pouco de sensibilidade dá para ouvir até poesia.
Porque há algo de profundamente humano nesse jeito de aprender a falar. A criança não repete a língua; ela recria. Ela testa possibilidades, inventa caminhos, dá novos contornos ao que escuta. E, nesse percurso, claro, revela o funcionamento da linguagem, mas também a beleza de um mundo que ainda está sendo nomeado.
Às vezes, nos pegamos sorrindo um para o outro, em silêncio, como se disséssemos: “Olha isso que Eben está falando…”. Não é todo dia que a gente vê, dentro da própria casa, o que estudamos na faculdade e lemos nos livros ganhar voz. E, ainda por cima, com tanta doçura, falado pelo próprio filho.
Sabemos que, com o tempo — e nem será necessário esperar a próxima Copa do Mundo —, as “fegurinhas” virarão “figurinhas”, as “miliçocas” reencontrarão as “muriçocas”, os “pibamas” acordarão sendo “pijamas”, e os “bagujeros”, em uma viagem qualquer, como a que fizemos recentemente para Aracruz, no Espírito Santo, encontrarão os “bagageiro” para guardar nossas malas. Enfim, a norma virá, como sempre vem. Mas uma parte de nós, que só os país entendem qual é, quase deseja que demore um pouco mais. Porque, enquanto essas palavras habitam a fala dele, elas também habitam um tempo único, irrepetível.
E talvez seja isso que a linguística, por mais rigorosa que seja, nunca consiga explicar por completo. Antes de ser regra, a língua é vínculo. Antes de ser norma, é afeto. E, aqui em casa, ela tem soado assim, leve, inventiva e absolutamente inesquecível.
*Edelvânio Pinheiro é escritor e jornalista.