*Crônica de Edelvânio Pinheiro
Em um universo onde a notícia policial quase sempre chega carregada de urgência e muita tensão, há histórias que acontecem longe dos holofotes, no compasso silencioso do cotidiano. Foi em um desses instantes discretos que algo diferente aconteceu na sede da 87ª Companhia Independente da Polícia Militar, em Teixeira de Freitas.
Naquele momento, não havia nada de excepcional que pudesse atrapalhar a rotina da Unidade. No lugar da atividade acelerada, havia um bolo simples, salgados, refrigerantes e um grupo de policiais reunidos, tentando disfarçar a ansiedade por trás de sorrisos contidos. A caserna, geralmente marcado pela disciplina rígida, respirava expectativa.
O comandante, major Barbosa, estava presente. Não à frente de uma operação, não emitindo ordens, mas conduzindo um gesto. Um gesto de reconhecimento. Homens e mulheres fardados aguardavam em silêncio, como quem sabe que algo importante está prestes a acontecer, mesmo sem armamento, viaturas ou protocolos.
Dona Nildes foi chamada ao refeitório. Ela é a mulher cujas mãos conhecem os corredores do quartel que varre diariamente, as superfícies que limpa com cuidado, os detalhes que mantém em ordem para que a engrenagem da segurança pública funcione sem ruído. Entrou sem desconfiar de nada. E, de repente, foi recebida por aplausos, sorrisos e olhares carregados de respeito.
E Dona Nildes chorou. Chorou daquele jeito desarmado. As lágrimas pareciam carregar surpresa e gratidão.
Ali, naquele instante, o major não comandava tropas, reconhecia gente. E nesse reconhecimento se revelava a forma mais sábia de liderança, a que compreende que uma instituição não se ampara apenas em hierarquias, normas e estratégias, mas em pessoas. Pessoas que chegam cedo, que varrem o chão, que preenchem formulários, que atendem telefones, que garantem que tudo funcione com a mesma importância daqueles que enfrentam o crime nas ruas, dia e noite.
O choro de Dona Nildes era mais do que emoção. Era a confirmação de que seu trabalho cotidiano, repetitivo, essencial importava e muito. Que ela, mesmo sendo funcionária civil, também faz parte dessa família que veste farda, boina e coturno.
Ao autorizar e incentivar aquela surpresa dentro do quartel, o major demonstrou um tipo raro de sabedoria, a que entende que a força de uma instituição policial-militar se mede pela rapidez na resposta às crises, sim, mas também pelo cuidado com que trata todos aqueles que constroem essa força que há 200 anos foi criada na Bahia para servir o cidadão.
E, enquanto Dona Nildes enxugava as lágrimas, os olhares ao redor revelavam a certeza de que a comemoração daquele aniversário também simbolizava o reconhecimento de que cada peça da engrenagem tem valor e que nenhuma estrutura se sustenta sozinha.
*Edelvânio Pinheiro é militar, bacharel em Jornalismo pela Católica (UCA), foi editor do jornal Alerta de Teixeira de Freitas e correspondente do A Tarde, de Salvador, na extinta sucursal do extremo sul, e é diretor-geral do site Água Preta News. É também radialista, ex-chefe de jornalismo da Rádio Extremo Sul de Itamaraju e diretor-geral da Rádio Master FM, de Itanhém. Escritor, autor de sete obras, incluindo uma obra infantojuvenil publicada no Brasil e em Portugal pela editora Flamingo, possui licenciatura em Letras Vernáculas pela Universidade do Estado da Bahia (UNEB) e é pós-graduado em Ciências Políticas.
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