Crônica de Edelvânio Pinheiro
Eu pensava que ainda faltava tempo.
Dois, talvez três anos, pelo menos, até que aquela cena imaginada se tornasse real: eu passando a bola, ele devolvendo o chute. Na minha cabeça, esse momento estava guardado num futuro distante, um dia a ser marcado no calendário da paciência. Mas o futuro, artista imprevisível, resolveu pintar seu quadro antes do esboço secar.
Meu filho completou um ano e seis meses no último dia 23. Dezoito meses apenas de existência — e já sabe coordenar perninha, equilíbrio e vontade para chutar uma bola. E o faz com uma alegria desarmada, pura, de quem não sabe que está construindo, tijolo a tijolo, uma catedral de memórias no peito do pai.
Ele chuta.
Rola a bola leve, e eu, num reflexo instantâneo, volto a ter doze anos. Sou o goleiro outra vez, o guardião do gol improvisado e imaginário. Meu salto é para defender o lance decisivo de uma final que só existe para nós dois.
Ele ri.
Ri com os olhos que brilham como dois sóis pequenos, com a boca que deixa escapar um gargalhado de água cristalina, com o corpinho todo que balança na felicidade do jogo. Depois, ele mesmo se joga no chão, vira goleiro, abraça a bola com um ar de conquista tão grande que transborda de seu ser minúsculo.
Obrigado, meu Deus. Obrigado por me permitir estar aqui. Por assistir de perto esse milagre cotidiano que cresce dentro da minha casa.
A noite chegou, trouxe o silêncio consigo. A casa, exausta de risadas, respira fundo. Coloco uma música suave para tocar. E quando os primeiros acordes de “É por você que canto” enchem o ar, a compreensão me atinge como a maré que finalmente encontra a praia.
É por ele que eu vivo.
É por esse menino que meus olhos abrem ao amanhecer, que minhas forças se renovam para a luta diária, que minha esperança teima em florescer mesmo no asfalto mais árido. Seus abraços são geografia nova, reduzindo o mundo ao tamanho exato do nosso aconchego. Seus beijos são física alterada, fazendo o tempo, relógio louco, bater mais devagar, só para esticar o instante.
E esse amor… Quanto mais ele me oferece, mais descubro que amar não é um recipiente que se enche. É um universo que se expande. Não tem fundo, não tem réguas, não tem porta de saída.
É por ele que eu caminho, mesmo quando o caminho corta os pés. É por ele que eu existo, e na existência, encontro um sentido que antes só era teoria.
Talvez um dia, o homem que ele será não se lembre deste goleiro de meia-idade, dessas defesas teatrais no tapete da sala, dessa dupla de risos rolando pelo chão. A memória da primeira infância é uma névoa dourada.
Mas eu vou lembrar.
Vou guardar na parte inquebrável da alma que, muito antes de dominar as palavras, ele já era um mestre completo na ciência da felicidade. E se um dia me perguntarem, talvez já com os cabelos totalmente brancos, qual foi a maior dádiva que recebi depois dos cinquenta, não vou recorrer a frases elaboradas.
Vou fechar os olhos, sentir o eco daquela risada no corredor do tempo, e direi a verdade simples e eterna:
“Foi um bebê, uma bola no chão e um coração que, quando já achava que sabia tudo, reaprendeu a amar. Para sempre.”
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