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Quarta-feira, 20 de Maio 2026
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Um bebê, uma lata de terra e um rápido descanso para tomar água

Enquanto o pai nivelava o terreno da casa, um pequeno ajudante de um ano e sete meses descobria que o mundo também pode ser construído com as próprias mãos.

Um bebê, uma lata de terra e um rápido descanso para tomar água
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*Crônica de Edelvânio Pinheiro

A fotografia que abre esta crônica parece simples à primeira vista. Um homem e um bebê sentados em um banco improvisado de madeira, ao lado de um saco de cimento coberto por uma lona, diante de um chão recém-remexido. Há ferramentas espalhadas: uma pá, uma colher de pedreiro e um balde de tinta velho, utilizado para carregar a terra retirada do terreno. Ao fundo, um pequeno pedaço de cano de 100 milímetros revela que o nivelamento do solo é necessário para forrar o chão com brita, cimento e areia, para o escoamento da água de chura.

O homem toma água gelada num copo de plástico. O menino também.

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E os dois descansam como dois trabalhadores que interromperam a obra por alguns minutos.

Mas quem olha com mais calma percebe que aquela cena não é apenas uma pausa no trabalho de nivelar o terreno da casa. É também um instante raro em que um pai percebe que seu filho está começando a nivelar o mundo.

Naquele dia, eu estava terminando uma etapa da preparação do terreno em frente à nossa casa. O serviço era simples na teoria e cansativo na prática. Retirar irregularidades, alinhar o solo, preparar tudo para receber a brita, aos 54 anos e sem quase nenhuma prática não é fácil.

E, como quase tudo em casa, nunca foi um trabalho solitário, Eben apareceu.

Ele chegou com aquele olhar curioso que parece sempre perguntar “o que está acontecendo aqui que eu ainda não descobri?”

Primeiro observou. Depois se aproximou. E, como acontece com todas as crianças que descobrem o mundo pelo corpo antes das palavras, logo quis participar.

Pegou ferramentas pequenas. Remexeu a terra e investigou tudo como um pequeno cientista do quintal.

Em determinado momento, quando eu já carregava a terra retirada do nivelamento em uma lata apoiada no ombro, ele decidiu que aquela também era uma tarefa dele. Aproximou-se com a segurança de quem já havia entendido o funcionamento das coisas e pediu que eu colocasse a lata na sua cabeça.

— Cabeça, papai.

Disse isso com toda a convicção do mundo.

Não havia dúvida na voz, nem hesitação no gesto. Para ele, aquilo fazia todo sentido: se o pai levava terra, ele também poderia levar. Apenas mudaria o lugar do equilíbrio.

O que me restou foi uma gargalhada — dessas que nascem antes mesmo da gente conseguir pensar direito. Depois veio a explicação, dada com o cuidado que se tem quando se conversa com alguém que está levando o assunto muito a sério. A lata era pesada demais, e ele ainda era pequeno para aquela tarefa.

Ele ouviu. Talvez não tenha concordado completamente, mas ouviu.

Acredito qe tenha falado “cabeça” porque não sabe ainda dizer “ombro”.
Ou talvez porque, para ele, o lugar certo de carregar o mundo seja mesmo a cabeça, onde moram as ideias.

E, para quem observa de fora, pode parecer apenas uma criança brincando de obra. Mas ali acontecia algo maior, Eben estava exercitando aquilo que mais gosta de fazer, que é participar do mundo.

Ele é assim desde muito cedo.

Sem telas que capturem sua atenção, sua curiosidade foi encontrando outros caminhos. As letras do computador que ele me vê usar enquanto trabalho viraram um mistério a ser desvendado. Hoje ele já reconhece quase todo o alfabeto. As cores também se tornaram companheiras, até aquelas que confundem adultos apressados: lilás, cinza, laranja e rosa.

Ele aprende rápido.

Rápido o suficiente para nos obrigar, a mim e à mãe dele, a viver em permanente estado de invenção.

E precisamos mostrar outra coisa sempre. Outro objeto. Outro caminho. Outra experiência.

Às vezes é um passeio. Às vezes são folhas no chão. Às vezes são pedras. Às vezes é simplesmente um pai nivelando o terreno da casa. E ele ali, ajudando.

Até com a própria autonomia ele parece ter pressa. Já controla surpreendentemente bem suas necessidades e, estando acordado, pede todas as vezes para ir ao banheiro. Ainda precisamos usar fralda quando saímos, por segurança, mas ele parece considerar isso apenas um detalhe logístico que os adultos ainda não entenderam direito.

E talvez ele esteja certo. Afinal, crianças têm uma maneira curiosa de nos mostrar que o mundo pode ser mais simples do que pensamos.

Enquanto eu cavava a terra naquele dia, percebi algo que talvez seja uma das maiores lições da paternidade. Criar um filho é mais do que ensinar como o mundo funciona. É permitir que ele ajude a construí-lo, mesmo que seja carregando um punhado de terra numa colher de pedreiro grande demais. Mesmo que ele ainda diga “cabeça” quando quer dizer “ombro”. Mesmo que o trabalho avance mais devagar por causa disso.

Porque, no fundo, há obras que não precisam terminar rápido.Elas precisam apenas acontecer.

E naquele pequeno canteiro de obra improvisado em frente de casa, entre pás e mãos sujas de terra, percebi que talvez eu não estivesse apenas preparando o terreno para receber brita. Talvez estivesse preparando o terreno para um menino que está aprendendo, pouco a pouco, a nivelar o próprio mundo.

Edelvânio e Eben
Edelvânio Pinheiro e seu filho Eben.
Eben, filho de Edelvânio Pinheiro
Eben, filho de Edelvânio Pinheiro

*Edelvânio Pinheiro é jornalista e escritor, autor de sete obras, inclusive de um livro infanto-juvenil, da editora Flamingo, lançado no Brasil e em Portugal.

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