Por Edelvânio Pinheiro*
Itanhém amanheceu mais quieta nesta sexta-feira, dia 2 de outubro. Às três da madrugada, no Hospital Municipal, o coração de Gercino Soares Antunes deu o último apito. Para a cidade inteira, porém, ele nunca foi Gercino. Foi sempre Gringo.
Veio de Almenara, cidade do Vale de Jequitinhonha ainda moço, com pouca bagagem e muita bola debaixo do braço. Em Itanhém encontrou o amor, casou, plantou família e raiz. Mas o que ele plantou de mais fundo, ali nos campos de terra e nas tardes de domingo, foi uma paixão que contagiou gerações.
Como zagueiro, Gringo era muralha. Não deixava passar o atacante nem a covardia. Tinha a marcação firme de quem sabe que o jogo se ganha primeiro no caráter. Depois pendurou as chuteiras e vestiu a camisa de técnico de futebol, a mais difícil de todas. Aí sim, descobriu que dava para jogar mil partidas ao mesmo tempo, em cada atleta que ele ensinava a correr, a cair e a levantar.
Foi dele a ideia do União, que depois passou a se chamar União Ticiana, que contou com o apoio financeiro da indústria de café que havia na cidade. Ele não criou apenas um clube. Criou um lugar de pertencimento, uma casa para quem não tinha onde pôr o sonho. Muitos jovens de Itanhém tiveram no União o primeiro uniforme, a primeira chuteira, o primeiro abraço de time, a primeira razão para ficar longe das esquinas erradas. Todos hoje são homens de bem, pais de família, e carregam no peito, sem saber explicar direito, um pedaço do Gringo técnico de futebol. Foram taças municipais, foram títulos regionais, foram incontáveis tardes de glória. Mas o troféu verdadeiro dele sempre foi a juventude que ele incentivou a abraçar o esporte.
Eu tive a honra de vestir a camisa do time de Gringo em vários campeonatos. E posso dizer que o que mais impressionava não era a tática nem a prancheta com os papéis de anotações. Era o amor. Lembro-me de uma final, com todos nós já uniformizados, o vestiário em silêncio, esperando as últimas orientações do mestre. Gringo abriu a boca para falar e não conseguiu. As lágrimas vieram primeiro. Ele chorou diante de nós, tomado por uma emoção grande demais para caber em palavras. Álvaro Gudim, um dos jogadores, então, teve que falar no lugar dele.
Naquele dia, entendi que ninguém precisava de discurso. Aquele choro foi a melhor preleção que já recebi na vida de atlçeta. Dizia tudo. Dia que ele acreditava em nós, que aquele jogo era sagrado, que o futebol, para ele, nunca foi só futebol. Entramos em campo com a alma inteira. E fomos campeões.
Hoje, quem chora somos nós. Chora a família. Choram os amigos, os ex-atletas, os torcedores, o Estádio Teixeirão. Choram os troféus e as medalhas. E talvez agora sejamos nós a não conseguir falar, engasgados, como ele naquele vestiário, naquele dia. Que aprendamos com Gringo que há dores e amores que só as lágrimas sabem dizer.
E, como o fascínio da literatura me dá essa condição, fecho os olhos e imagino o que se passa lá em cima.
Imagino um portão se abrindo, e não é um portão qualquer. É o túnel de um estádio infinito, de grama perfeita, lotado de luz. Imagino Deus, de pé, esperando o velho zagueiro chegar. Sem pressa, sem prancheta, só com um sorriso largo de quem diz: "Entra, Gringo. Pode descansar. Eu vi tudo o que você fez lá embaixo."
Imagino a arquibancada celeste de pé, aplaudindo. Imagino cada adolescente que ele ajudou a formar, cada tarde de domingo, cada lágrima de emoção, todos transformados em coro. E imagino o Criador entregando a ele a taça que nenhum campeonato da terra poderia oferecer, a de ter feito o bem jogando o jogo que amava. O futebol!
"Edelvânio Pinheiro é jornalista e escritor, autor de oito livros.