Crônica de Edelvânio Pinheiro*
A vida tem dessas surpresas amargas. Quando você acha que já apanhou tudo que podia, ela aparece com mais um nocaute, daqueles que fazem a gente perder o ar e ficar tateando no escuro, procurando qualquer coisa que pareça chão. E foi assim que, no dia 11 de novembro, recebi uma notícia daquelas que entram sem bater, puxam uma cadeira no meio da sala, cruzam as pernas e te chamam — de forma bruta e desumana — para um diálogo que você nunca pediu. Uma notícia que exige urgência, decisão, controle emocional e uma força que a gente nem sempre sabe que tem.
Confesso aos meus amados leitores que me acompanham que a primeira vontade é se encolher. A segunda é permanecer encolhido. Mas aí vem aquela terceira vontade — a única à qual devo me agarrar com todas as minhas forças — levantar a cabeça e enfrentar o que vier, porque não existe outra opção senão lutar. Afinal, se tem medo, vai com medo mesmo. Fugir não resolve; chorar alivia, mas não retira o peso; e reclamar não cura. Essa matrona que muitos chamam de coragem não chega gritando. Ela chega mansinha, quase sussurrando, dizendo que ainda é possível, que ainda vale a pena, que ainda há luz para ser encontrada.
E é aí que a música me pega pela gola: “Claro que o sol vai voltar amanhã.” Renato Russo não sabia nada sobre o que eu enfrentaria no final do ano de 2025, mas escreveu como se soubesse. Esse verso, de uma de suas canções mais brilhantes, virou o fio que me puxou para fora do breu, numa lembrança de que a escuridão é apenas um turno. Ela não reina para sempre.
E, enquanto o sol não chega, o que me segura são as orações. Não aquelas apressadas, ditas por obrigação, mas as que nascem do coração dos amigos de verdade; os que somem no barulho, mas aparecem no silêncio. Gente que manda força quando não tem jeito, que oferece ombro quando não tem palavra, que sustenta a gente com uma fé que, às vezes, nem nós mesmos conseguimos carregar.
Eu sei que a luta é dura. Sei que cirurgia não é só bisturi, é medo misturado com esperança. É a pessoa entrando numa sala fria sabendo que, dali em diante, também precisa estar forte por dentro; não só na pele, mas no espírito. Sei que dói, que assusta, que cansa e maltrata. Mas também sei que ninguém enfrenta esse tipo de batalha completamente sozinho. E isso muda tudo.
Porque, no fim das contas — e a doutora Eloha deixou isso bem claro na mensagem linda que me enviou pelo WhatsApp — a tempestade não é convite para desistir; é desafio para provar que a gente ainda tem fé, ainda tem vontade para continuar existindo. E se hoje o céu parece pesado, amanhã ele vai abrir num clarão inesperado, porque a vida, apesar de suas pancadas fortes e sorrateiras, também sabe ser generosa.
Então sigo. Não por valentia, mas por necessidade; não porque sou indestrutível, mas porque aprendi que a coragem só existe quando o medo está presente. Afinal, o sol pode até ter se escondido, mas não desaprendeu o caminho.
Claro que o sol vai voltar amanhã. E, quando voltar, quero estar aqui. De pé. Inteiro. E grato a Deus e a todos que estenderam a mão para minha filha Thathira Mickaelle.
*Edelvânio Pinheiro é escritor, jornalista e pai de Thathira Mickaelle.
Comentários: