Crônica de Edelvânio Pinheiro*
O ano de 2025 vai fechando a porta devagar, como quem não quer fazer barulho para não acordar as dores que dormem espalhadas pela casa. Foi um ano pesado. Para alguns, duro demais. Para outros, silenciosamente cruel. Houve perdas, medos, despedidas que não avisaram que seriam definitivas. Houve noites longas e manhãs sem pressa de nascer.
E, ainda assim, chegamos até aqui.
Não inteiros. Ninguém chega inteiro depois de um ano como esse. Mas é possível chegar de pé. E isso, por si só, já é um milagre cotidiano que a gente costuma subestimar.
Em meio a tantas incertezas, a fé virou abrigo. Não essa fé barulhenta, de frases prontas e promessas fáceis, mas a fé miúda, íntima, quase teimosa. A fé de quem acorda mesmo sem vontade. De quem insiste em amar mesmo depois de ter sido ferido. De quem ainda acredita que Deus não perdeu o controle do mundo, embora o mundo, às vezes, pareça ter perdido o rumo.
E foi nesse cenário de cansaço e oração que a esperança resolveu se manifestar do jeito mais simples e mais bonito possível. Meu filho, ainda bebê, com apenas 1 ano e 5 meses, falou o próprio nome: Eben. Uma palavra curta, dita com esforço, com inocência, com aquele som ainda torto de quem está descobrindo o mundo. Mas ali havia mais do que uma fala. Havia um recado. Como se a vida dissesse, sem discursos, para continuar. Às vezes, Deus não responde com explicações. Responde com um filho chamando a si mesmo pelo nome.
Há dias em que tudo o que a gente precisa é lembrar da canção Dias Melhores do Jota Quest. Não como trilha sonora de otimismo ingênuo, mas como sussurro de resistência. Porque esperar dias melhores não é negar a dor; é recusar-se a morar nela para sempre.
Esperança não é fechar os olhos para a realidade. É abrir o coração apesar dela.
Que 2026 chegue com menos pressa e mais cuidado. Que nos ensine a ouvir mais, julgar menos, abraçar com mais verdade. Que a gente aprenda a valorizar o simples: o café quente passado no coador de pano que tomo ao escrever esta crônica, a conversa honesta, o riso inesperado, a alegria de ter chegado — e chegado bem.
Se há algo que este ano nos ensinou, é que o amor ainda é o gesto mais revolucionário que existe abaixo do céu. Amar a família, os amigos — os verdadeiros, claro —, os que caminham ao nosso lado e até aqueles que pensam diferente da gente. Amar, sobretudo, a vida — mesmo quando a dor nasce dentro da própria família.
Que o novo ano venha com tempos mais leves, sim. Mas que venha também com corações melhores. Mais humanos. Mais solidários. Mais atentos aos que sofrem em silêncio, aos que não aparecem nas estatísticas, aos que seguem carregando a vida nas costas sem aplauso, sem holofote, apenas com fé e resistência.
E que, quando tudo parecer difícil outra vez — porque vai parecer —, a gente lembre que já atravessamos noites muito amargas. E o sol, tímido ou com sua intensidade máxima, sempre encontra um jeito de nascer para ensinar que escuridão é passageira.
Feliz Ano Novo a todos os leitores que acompanham o meu trabalho jornalístico e literário. Com fé. Com esperança. E com a certeza de que dias melhores virão.
*Edelvânio Pinheiro é escritor, autor de sete obras, e jornalista.
Créditos (Imagem de capa): Eben Howard di Joana-Kerry
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