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Terça-feira, 27 de Janeiro 2026
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Quando Deus passa pelo ponto de ônibus

Há momentos em que Deus não argumenta. Não faz sermões. Ele simplesmente se encontra no caminho.

Quando Deus passa pelo ponto de ônibus
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Crônica de Edelvânio Pinheiro*

Vi minha filha chorar em um vídeo publicado na internet. E ela estava alegre. Um paradoxo que só a alma compreende. As lágrimas não eram de desespero; brilhavam como reconhecimento.

Ela está em São Paulo, onde nesta terça-feira (6) enfrentará uma cirurgia. Mas o choro que vi não vinha do medo. Vinha de algo mais sereno, dessas delicadezas que só o Espírito Santo consegue traduzir.

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Ela contou o que havia acontecido. Em um ponto de ônibus, em Vitória, um homem se aproximou. Perguntou o destino. Perguntou o motivo da viagem. E ela respondeu com a verdade simples de quem carrega um peso que não precisa de adereços.

Ao ouvir, ele não deu conselhos. Não fez promessas vazias. Em silêncio, tirou do bolso uma cruz com Cristo e uma medalha de São Bento e colocou nas mãos dela. Um gesto puro, despojado de qualquer retórica. Um presente que era um silêncio eloquente.

Minha filha tem um filho de nove anos. O nome dele também é Bento.

Sem questionar, sem discursos ela aceitou. Às vezes, a fé é exatamente isso: um coração que se abre para receber um sinal sem exigir explicações. É a rendição à graça vestida de casualidade.

E só depois ela soube que o homem era o frei David Belineli, de Colatina. Quando teve essa certeza, ele já não estava mais ali. Mas isso é quase um detalhe. A essência não está no título, mas no gesto. O mensageiro é passageiro; a mensagem, eterna.

Naquele instante, não foi um religioso que falou com minha filha. Foi Deus, na sua infinita delicadeza, usando as mãos de um desconhecido para tocar o ombro dela. Para dizer sem palavras, no código íntimo da nossa família, através do nome do meu neto, que a proteção além de real era personalizada.

Foi Deus passando pelo ponto de ônibus, dizendo, sem uma única palavra, que ela nunca esteve sozinha durante toda essa batalha.

E eu chorei também. Não de impotência, mas de gratidão.

Porque há momentos em que Deus não argumenta. Não faz sermões. Ele simplesmente se encontra no caminho. Entrega símbolos palpáveis do seu amor. Fala através do nome de um neto. E envia um peregrino com um tesouro no bolso.

A cruz ficou nas mãos dela. E a fé, esse fogo silencioso, reacendeu-se, mais forte do que qualquer medo.

*Edelvânio Pinheiro é escritor, autor de sete obras, e jornalista. Ele é pai de Thathira Mickaelle.

Créditos (Imagem de capa): Thathira Mickaelle mostra o presente que ganhou antes da cirurgia.

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