“Não temo um exército de leões liderado por uma ovelha; temo um exército de ovelhas liderado por um leão.” A frase atribuída a Alexandre, o Grande, ainda que de autenticidade discutida, expressa a ideia de que o futuro de um povo depende, em grande parte, da qualidade de sua liderança.
É o caso da cidade de Itanhém, no extremo sul da Bahia. O problema não é a falta de potencial da população, mas a mediocridade de quem ocupa o poder. Quando um município é governado por um prefeito que confunde gestão pública com extensão de interesses privados, o resultado é previsível. Os recursos são direcionados a aliados, privilégios a familiares e um abandono sistemático das necessidades reais da população. A máquina pública deixa de ser instrumento de desenvolvimento e passa a funcionar como mecanismo de recompensa política.
As consequências são visíveis e, sobretudo, sentidas. A saúde pública se torna um serviço precário e humilhante; a infraestrutura se deteriora sem planejamento ou manutenção; oportunidades econômicas deixam de ser fomentadas; e o município entra em um ciclo de atraso difícil de romper. Mais grave ainda é o efeito psicológico coletivo, que acaba estabelecendo a descrença, a apatia e a perigosa normalização do mau governo.
Nesse ambiente, o dano ultrapassa a gestão presente e contamina o futuro. O surgimento de novas lideranças é sufocado. Pessoas capazes e com espírito público, como Dr. Osmilto Brandão, Ivan Santana e Paulinho Correia, por exemplo, recuam, intimidam-se ou simplesmente desistem de participar do processo. O medo de enfrentar estruturas viciadas, somado à percepção de que o mérito pouco vale, leva muitos ao silêncio. Outros, em um movimento ainda mais preocupante, optam por se adaptar ao sistema, alinhando-se ao mesmo modelo que antes criticavam, em troca de espaço e sobrevivência política. Assim, o ciclo se perpetua. Lideranças frágeis produzem sociedades estagnadas, que por sua vez deixam de formar líderes à altura de suas necessidades.
Romper esse padrão exige mais do que alternância de poder; exige coragem coletiva e compromisso com princípios. Liderança não é apenas ocupar um cargo, mas assumir a responsabilidade de transformar realidades. Sem isso, qualquer cidade, não apenas Itanhém, por mais rica em potencial humano e recursos, continuará refém de gestões que limitam seu próprio futuro.
E então surge nas redes sociais a cena que traduz, de forma quase didática, tudo o que está errado na liderança política do município. O prefeito Bentivi aparece em um vídeo dançando de forma leve e descontraída ao lado de sua esposa, nomeada por ele para comandar a Secretaria Municipal de Assistência Social. Ao som da bela música de Alceu Valença, ele literalmente dança. E não há crime algum nisso, não fosse o contexto de uma cidade que sofre, serviços que falham e demandas que se acumulam. É justamente nesse contraste que a imagem deixa de ser banal e passa a ser simbólica.
Talvez Bentivi tenha escolhido apenas uma boa música para um momento de descontração. Mas, na política, símbolos também governam. Enquanto os acordes de La Belle de Jour embalam a leveza de quem ocupa o poder, milhares de itanheenses seguem enfrentando uma realidade bem menos harmoniosa. E é exatamente por isso que o vídeo provoca tanta repercussão. Porque, enquanto o prefeito dança ao som da música, a população que nele confiou já "dançou" no sentido mais duro da palavra.
Fonte/Créditos: Por Edelvânio Pinheiro