Eu sou pai de um menino de pouco mais de um ano, o Eben. E, desde muito cedo, fiz uma escolha que hoje defendo com convicção. Na nossa casa, não há telas para ele. Nem celular, nem televisão. A TV, inclusive, foi desligada definitivamente em 23 de julho de 2024, o dia que ele nasceu.
Essa decisão nunca foi sobre radicalismo. Foi sobre responsabilidade.
Hoje, observo no meu filho algo que chama atenção por onde ele passa. Eben reconhece todas as letras do alfabeto, identifica números e já começa a combiná-los — entende que 1 com 0 forma 10, que 1 com 1 forma 11. Ele não apenas repete, ele demonstra noção de quantidade. Se vê dois ou três objetos, identifica. Se é muito, ele mesmo define com a espontaneidade da infância: “um tantão”. Recentemente, em um supermercado, algumas pessoas presenciaram e ficaram impressionadas quando ele disse que havia conseguido tirar três bolas daquelas maquininhas em que colocamos moedas.
Ele reconhece as cores desde muito cedo, inclusive variações como marrom, rosa, lilás e cinza. Ainda está desenvolvendo a fala, então adapta: “óza” para rosa, “ôxo” para roxo, “cinze” para cinza, e algo como “manonh” (com som de “nh”, semelhante ao “ñ” do espanhol) para marrom. Mas a limitação é apenas fonética, a compreensão está lá, clara.
As formas também fazem parte do repertório dele. Círculo, triângulo, retângulo, oval, trapézio e até pentágono e hexágono. Ele diferencia os dois com segurança, chamando de “penta” e “hexa”. Isso não foi ensinado por telas. Foi construído na interação, no chão, no papel, na presença.
Ontem à noite eu estava lendo o livro que ilustra este artigo, Que minha filhaThathira trouxe de São Paulo para mim. Eben pegou o livro e disse: “P, E = PE”. Depois teve dificuldade para associar “L + E”. Eu ajudei, e ele tentou novamente, dizendo “Pedé”, tentando formar “Pelé”. Ele ainda está em fase de desenvolvimento da fala, o que significa que ele já constrói ideias e relações lógicas, mas ainda não consegue reproduzir corretamente todos os sons e combinações da linguagem adulta.
E é aqui que está o ponto central, pois nada disso veio de exposição passiva.
Meu filho não aprende olhando para uma tela. Ele aprende olhando para pessoas. Interagindo. Explorando. Errando e tentando de novo.
A rotina dele é organizada rigorosamente pela mãe, que é poetisa, tem licenciatura em Letras Vernáculas pela UNEB e é apaixonada por psicologia. O sono dele é respeitado, a alimentação é cuidadosamente preparada em casa para ele sentir o cheiro do alho queimando na panela. Ele não come açúcar ainda, só depois dos anos, e teve uma introdução alimentar feita com critério. Não houve sequer aniversário de um ano com excessos que pudessem interferir nesse processo. Pode parecer extremo para alguns, mas para a mãe dele ele se chama coerência.
Também não fazemos isso sozinho. Contamos com a orientação de uma profissional qualificada, a pedagoga Maria Batista, especializada em educação infantil, psicomotricidade clínica e neuroeducação. Mas, acima de tudo, existe presença ativa dentro de casa. Nossa sala nunca teve mesa, propositalmente, para que ele tivesse um espaço só dele.
Muitas pessoas perguntam se ele já está na escola. Eu entendo a pergunta — dá até vontade de dar uma resposta mais direta —, mas ela revela a crença equivocada de que o desenvolvimento vem de fora, de instituições, quando, na verdade, começa dentro de casa, na qualidade das interações diárias.
Não afirmo que meu filho é um “gênio”. Nem preciso disso. O que afirmo, com segurança, é que ele tem um ambiente que favorece o desenvolvimento pleno.
E é por isso que defendo, sem hesitação, o controle rigoroso de telas nos primeiros anos. E isso não é um detalhe, é uma decisão estruturante no futuro de uma criança.
Telas oferecem estímulo rápido, passivo e muitas vezes desregulado. A infância precisa do oposto, precisa de tempo, repetição, vínculo, linguagem viva, contato real com o mundo.
Talvez meu filho tivesse boas habilidades mesmo com telas. Talvez. Mas o que vejo hoje me mostra que não valia a pena correr esse risco. Porque desenvolvimento não é sobre acelerar. É sobre construir bem.
E, onde quer que Eben Howard di Joana Kerry Pinheiro Lima vá, ele chama atenção. Não porque foi treinado. Mas porque está presente, curioso e conectado com o mundo real.
E é exatamente isso que eu e a mãe dele quisemos preservar.
Créditos (Imagem de capa): Por Edelvânio Pinheiro
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